A História de Manaus e de seus Igarapés

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N√£o se pode contar a hist√≥ria de Manaus sem falar de seus igarap√©s, dos que existem e dos que desapareceram. S√£o elementos naturais que caracterizam a nossa regi√£o e que, teimosamente, marcam a cidade e a sua gente desde os primeiros momentos de sua forma√ß√£o, seja como constituintes dos h√°bitos locais, seja como definidores, muitas vezes, dos limites entre bairros ou, ainda, como entraves ao desenvolvimento. √Č o caso, por exemplo, dos igarap√©s de S√£o Vicente e do Aterro que, como tantos outros, foram extintos para dar passagem ao progresso.

A História de Manaus e de seus Igarapés
Igarapé do Espírito Santo (Avenida Eduardo Ribeiro)

Onde hoje se localiza o pr√©dio da Fazenda P√ļblica do Estado, na rua Monteiro de Souza (Centro), est√£o enterradas as ru√≠nas da Fortaleza de S√£o Jos√© do Rio Negro, que deu origem √† cidade de Manaus. Centenas de urnas funer√°rias (iga√ßabas) foram encontradas nas cercanias do Forte e os vest√≠gios indicam que se tratava do n√ļcleo principal de um cemit√©rio ind√≠gena.

Esses elementos denunciadores das origens de nossa cidade est√£o duplamente enterrados, ignorados pelos passos apressados dos citadinos que se ami√ļdam no passeio p√ļblico, sem saber que pisam os vest√≠gios dos antepassados de cuja hist√≥ria deriva indissociavelmente nossa pr√≥pria identidade ‚Äď ou a nega√ß√£o dela. Sem mem√≥ria e destitu√≠do dos referenciais de suas pr√≥prias origens, o amazonense se olha e n√£o se reconhece.

A História de Manaus e de seus Igarapés
A História de Manaus e de seus Igarapés

O que se deve ressaltar na hist√≥ria da cidade de Manaus √© a hist√≥ria de sua constitui√ß√£o como cidade, como centro referencial e de suporte das opera√ß√Ķes do capitalismo de arriba√ß√£o que, por meio de seus ciclos de barb√°rie, condenou o amazonense a uma exist√™ncia psitac√≠dica em que ele constr√≥i uma desidentidade na identidade do opressor. Como nas s√°bias palavras do poeta Alcides Werk ‚Äď que nos acompanha, com a sua poesia e o seu amor pelas √°guas do Amazonas, em outros momentos deste trabalho ‚Äď no poema ‚ÄúPapagaio‚ÄĚ, do livro In Natura: poemas para a juventude:

Por falar engra√ßado, dizer ‚Äúlouro‚ÄĚ,
o papagaio perde a liberdade.
Troca o universo verde da floresta
pelo pequeno espaço da cidade.
Move-se tr√īpego, andar desengon√ßado,
gingando vai atr√°s do carcereiro;
domesticado, esquece a própria espécie
‚Äď galin√°ceo entre as aves do terreiro.
Para prazer dos homens é um palhaço,
em busca da comida é um flibusteiro,
acostuma-se ao trato das comadres
e segue parolando o dia inteiro.
Já vai longe a lembrança da floresta.
Como escravo, entre as almas mais pequenas,
do seu mundo selvagem só lhe resta
o verde claro de suas próprias penas (WERK, 1999, p. 53).

 

fonte : Igarapés de Manaus

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