A História do Largo de São Sebastião

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O Largo de S√£o Sebasti√£o √© um importante √≠cone para o cen√°rio hist√≥rico e cultural de Manaus, relacionado diretamente com o ciclo econ√īmico da Borracha que abrange o final do s√©culo XIX e in√≠cio do s√©culo XX. Uma vez que o Turismo deve ter por finalidade a intensifica√ß√£o das rela√ß√Ķes humanas, al√©m do consumo visual do lugar, surge a necessidade de um levantamento hist√≥rico a respeito dos patrim√īnios que comp√Ķe o Centro Hist√≥rico de Manaus, relevantes para a reafirma√ß√£o da identidade cultural da popula√ß√£o manauense, uma vez que a sociedade interpreta os¬† diferentes per√≠odos hist√≥ricos por meio da valoriza√ß√£o dos patrim√īnios que integram o seu contexto social. Sendo assim, por meio de um¬†¬† levantamento bibliogr√°fico e documental, e a partir de um recorte temporal e espacial, o Largo de S√£o Sebasti√£o √© apresentado dentro dos seus¬† simbolismos, de sua relev√Ęncia hist√≥rica e cultural e da sua import√Ęncia para o Turismo na cidade de Manaus.

A História do Largo de São Sebastião
A História do Largo de São Sebastião


A HIST√ďRIA DO LARGO

Em decorr√™ncia do ciclo econ√īmico da Borracha, que j√° se fazia presente na exporta√ß√£o regional desde 1827, Manaus deveria se apresentar moderna, limpa e atraente .

Então, com a justificativa de modernizar e embelezar a cidade, os governantes da época passaram a se preocupar mais com a aparência do lugar, tendo em vista a atração de mais investimentos e a visibilidade internacional da então Tapera de Manaus .

Foi assim que Manaus rendeu-se a influ√™ncia da Belle √Čpoque, movimento que surgiu na Fran√ßa, entre o final do s√©culo XIX e o in√≠cio do s√©culo XX, e visou a melhoria da qualidade de vida e estrutura√ß√£o das cidades.

√Č importante salientar tamb√©m que as obras urban√≠sticas as quais Manaus foi submetida na √©poca possuem influ√™ncia direta do complicado tra√ßado urbano aplicado pelo prefeito de Paris, o Bar√£o Haussman, na pr√≥pria cidade de Paris.

A História do Largo de São Sebastião
A História do Largo de São Sebastião

√Č nesse per√≠odo de transforma√ß√Ķes urban√≠sticas e culturais marcantes que conv√©m falar da pra√ßa, mais precisamente do Largo de S√£o Sebasti√£o, como espa√ßo de sociabilidade e palco de importantes manifesta√ß√Ķes caracterizadoras de uma sociedade e dentro de um contexto hist√≥rico definido.

Ao falar do Largo de S√£o Sebasti√£o, imediatamente faz-se necess√°rio abordar tamb√©m os patrim√īnios que est√£o intimamente ligados a sua hist√≥ria e que se constituem como refer√™ncias tur√≠sticas para a cidade de Manaus, como: o Teatro Amazonas, a Igreja de S√£o Sebasti√£o e o Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Com√©rcio Mundial.

Inicialmente, o local onde hoje se situa a Pra√ßa de S√£o Sebasti√£o era uma pequena ro√ßa de propriedade do Tenente-coronel Ant√īnio Lopes de Oliveira Braga e ficava localizado entre as ruas do Progresso, da Feliz Lembran√ßa e de Gon√ßalves Dias.

No dia 7 de setembro de 1867, o m√©dico Dr. Ant√īnio Dav√≠ Vasconcelos de Canavarro, ent√£o Diretor das Obras P√ļblicas, mandou preparar o referido terreno para que fosse erguido no mesmo uma coluna de pedra, de seis metros de altura e com quatro faces lisas, em homenagem ao ato de abertura do rio Amazonas ao com√©rcio mundial.

Por volta de 1898, tornou-se necessário construir outro monumento em vista da necessidade de embelezamento do Praça de São Sebastião, já que a coluna apresentava em processo de deterioração. Mário Ypiranga (1972, p. 45) afirma ser o dia 5 de setembro de 1900 a data provável de inauguração oficial do Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Comércio Mundial.

O artista italiano Domenico de Angelis é o autor do monumento atual, porém, não foi o mesmo quem executou o projeto, uma vez que era normal o artista italiano contar com uma equipe de apoio. Domenico de Angelis não chegou a ver o monumento como um todo instalado no Largo de São Sebastião, uma vez que o mesmo faleceu em março de 1900, ou seja, antes da inauguração do monumento.

M√°rio Ypiranga tece algumas cr√≠ticas com rela√ß√£o ao Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Com√©rcio Mundial, j√° que o mesmo n√£o apresenta nenhum tra√ßo caracter√≠stico da regi√£o amaz√īnica, a n√£o ser o escudo do Amazonas. O cal√ßamento em torno do Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Com√©rcio Mundial foi executado por Ant√īnio Augusto Duarte, que cal√ßou a pra√ßa com paralelep√≠pedos de granito de origem portuguesa nas cores pretas e brancas, uma alus√£o ao encontro das √°guas negras do rio Negro com as √°guas barrentas do rio¬† Solim√Ķes.

A História do Largo de São Sebastião
A História do Largo de São Sebastião

Anos antes da instala√ß√£o do Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Com√©rcio Mundial, tem-se a inaugura√ß√£o do Teatro Amazonas, considerado o s√≠mbolo mais importante do auge do ciclo econ√īmico da Borracha na regi√£o amaz√īnica.

Em 1883, o presidente José Paranaguá sugeriu a construção do Teatro no terreno que se localizava em frente a Praça Paysssandu, uma vez que o local apresentava-se ventilado e localizava-se bem no centro da cidade.

Por√©m, a exist√™ncia do igarap√© do Esp√≠rito Santo no local tornava o terreno impr√≥prio para receber tal obra. Assim, foi escolhido o terreno localizado em frente a Pra√ßa de S√£o Sebasti√£o, que pertencia ao tenente coronel Ant√īnio Lopes Braga. O local foi desapropriado em 1884 para o in√≠cio da constru√ß√£o do teatro, por ordem do Presidente Jos√© Paranagu√°.

A cor original do Teatro Amazonas √© um assunto que gera pol√™micas entre autores e pesquisadores da √°rea. Otoni Mesquita afirma que o uso da cor rosa era freq√ľente nas fachadas dos pr√©dios do s√©culo XIX. Al√©m disso, a fachada divulgada em 1893 apresentava a 3 O ato de abertura do rio Amazonas ao com√©rcio mundial deu-se em 7 de dezembro de 1866 pelo ent√£o Imperador do Brasil D. Pedro II. cor rosa, o que pode ter definido a escolha da mesma cor. Por√©m, o autor M√°rio Ypiranga Monteiro diz que a pintura cor-de-rosa do teatro √© recente e de autoria do engenheiro Victor Troncoso.

Outro tema norteado por d√ļvidas e simbolismos √© a c√ļpula de ferro do Teatro Amazonas. No acervo do teatro √© poss√≠vel encontrar um projeto met√°lico da c√ļpula, datado de 1894 e de autoria do desenhista Willy von Bancels, o mesmo autor da planta da cidade de 1893.

A História do Largo de São Sebastião
A História do Largo de São Sebastião

A arma√ß√£o de ferro √© de origem europ√©ia e as telhas envernizadas foram importadas da regi√£o francesa da Als√°sia. A grandiosidade da c√ļpula, que apresenta as cores verde, amarela, azul e branca, uma alus√£o direta a Bandeira Nacional, era uma forma de lembrar aos barcos estrangeiros que aportavam em Manaus que os mesmos estavam em terras brasileiras. √Č v√°lido lembrar que na √©poca era poss√≠vel observar o Teatro¬† Amazonas de quase todas as partes da cidade.

A constru√ß√£o da c√ļpula no alto do Teatro Amazonas foi alvo de in√ļmeras cr√≠ticas na √©poca. Tal fato √© ratificado em v√°rios documentos oficiais¬† datadas da √©poca, onde √© poss√≠vel at√© mesmo encontrar editais chamando concorrentes para a demoli√ß√£o da c√ļpula.

Ap√≥s in√ļmeras paralisa√ß√Ķes no andamento das obras de constru√ß√£o do Teatro Amazonas, em virtude de v√°rios motivos, o mesmo foi inaugurado oficialmente em 31 de dezembro de 1896. Consequentemente, a edifica√ß√£o atual do Teatro Amazonas n√£o corresponde ao projeto original.

Assim como o Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Com√©rcio Mundial e o Teatro Amazonas, a Igreja de S√£o Sebasti√£o tem uma import√Ęncia fundamental para a hist√≥ria do Largo de S√£o Sebasti√£o. Tal fato √© ratificado pelo pr√≥prio nome do largo, na √©poca de concep√ß√£o¬† apenas pra√ßa, influenciado diretamente pela presen√ßa da igreja no local.

Otoni Mesquita afirma que a refer√™ncia mais antiga a respeito da constru√ß√£o da Igreja de S√£o Sebasti√£o √© datada de novembro de 1868, conforme os relat√≥rios da prov√≠ncia. A constru√ß√£o da Igreja de S√£o Sebasti√£o √© datada de 1888, na qual a dire√ß√£o √© atribu√≠da a Gesualdo Machetti. Durante todo o per√≠odo de edifica√ß√£o da igreja, verificam-se v√°rias paralisa√ß√Ķes nas obras e modifica√ß√Ķes no projeto arquitet√īnico.

Por√©m, a partir de 1911, a queda dos pre√ßos da Borracha provocou o fechamento dos seringais na Amaz√īnia. A economia do l√°tex entrou em decl√≠nio principalmente no ano de 1913 e, em 1920, foi confirmada a fal√™ncia da Borracha na regi√£o. Assim, os del√≠rios de uma sociedade cuja economia baseou-se unicamente na produ√ß√£o da Borracha, um dos principais erros dos governantes da √©poca, transformaram-se em ang√ļstias e decep√ß√Ķes, refletidas na decad√™ncia de muitas fam√≠lias importantes na cidade de Manaus e nas ru√≠nas de muitos patrim√īnios ao longo do tempo.

Fonte : Revista Eletr√īnica Abor√© Publica√ß√£o da Escola Superior de Artes e Turismo – Edi√ß√£o 03/2007
ISSN 1980-6930
MEM√ďRIAS DO LARGO DE S√ÉO SEBASTI√ÉO
Jhonathan Nogueira Martiniano. e  Elizabeth Filippini.

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