A Lenda do Jurupari

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Jurupari √© a figura que aparece nas lendas tupis e tamb√©m no folclore de tribos ind√≠genas das mais diversas proced√™ncias. Ele √© o legislador, filho de uma virgem, concebido por meio do sumo do mapati (imba√ļba-de-cheiro) quando ela comia essa fruta no dia em que sua ingest√£o era rigorosamente proibida √†s donzelas. Jurupari foi o mensageiro do Sol na Terra, cujos costumes come√ßou a reformar a fim de encontrar nela uma mulher t√£o perfeita que fosse digna de casar com o astro-rei. Mas n√£o encontrou at√© hoje uma criatura nessas condi√ß√Ķes, e provavelmente n√£o a encontrar√° jamais, mas apesar disso prossegue em sua busca porque essa √© a miss√£o que lhe foi confiada.

A Lenda do Jurupari
A Lenda do Jurupari

Diz a lenda que se deve a Jurupari uma s√©rie de benef√≠cios para o sexo masculino. Quando chegou √† Terra o governo aqui era exercido pelas mulheres, mas ele o transferiu para os homens alegando que o matriarcado contrariava as leis do Sol. E para que os do sexo masculino se tornassem independentes das do sexo feminino, instituiu grandes festejos em que nenhuma mulher poderia tomar parte, e segredos que somente eles poderiam conhecer. Os usos, leis e costumes que o her√≥i solar criou s√£o obedecidos at√© hoje por v√°rias tribos da bacia amaz√īnica.

Segundo outra versão, Jurupari é um ente estranho que visita os seres humanos durante o sono e os assusta com a visão de perigos horríveis, tremendos, impedindo-os ao mesmo tempo de gritar por socorro. Muitos o confundem com o Anhangá, gênio ou espírito que os indígenas brasileiros acreditavam ser protetor dos animais terrestres, mas perseguidor dos humanos. Todos, porém, concordavam que Jurupari e Anhangá representavam uma força diabólica, mas a maioria dos relatos colhidos sobre eles sugere que a crença quanto aos dois resultava dos pesadelos que atribulavam os índios durante o sono.

Foram os jesu√≠tas que deram a Jurupari a caracter√≠stica de dem√īnio. Como eram extremamente supersticiosos, os ind√≠genas aceitaram sem discutir a vers√£o de que esp√≠ritos do mal criavam as imagens noturnas que os assustavam e lhes perturbava o sono. E tanto isso √© verdade que a designa√ß√£o Jurupari pode ser traduzida como ‚Äúser que vem √† nossa rede‚ÄĚ, que √© onde os √≠ndios dormiam. Ou seja, ela traduz a id√©ia de que algu√©m visita os homens √† noite, enquanto eles dormem, trazendo vis√Ķes de muitos perigos e provocando com isso grandes afli√ß√Ķes. Em outras palavras, nada mais, nada menos, que um pesadelo.

Abordando esse mesmo assunto, Osvaldo Orico (1900-1981), professor, diplomata, poeta e ensa√≠sta, escreve o seguinte: ‚ÄúTendo incutido no √Ęnimo dos selvagens que o esp√≠rito que os visitava, √† noite, outra coisa n√£o era sen√£o o esp√≠rito mau, o filho das trevas, √© natural que os jesu√≠tas nos certifiquem de que essa era a cren√ßa dos naturais. Efetivamente, segundo testemunho de quase todos os mission√°rios, jurupari √© sin√īnimo de dem√īnio. Em ‚ÄėMitos amer√≠ndios‚Äô, tive ocasi√£o de assinalar o motivo da analogia. Transcreverei aqui o que se indicou sobre o curioso mito e que √© a parte mais interessante de sua legenda‚ÄĚ:

“Entende Couto de Magalh√£es que a palavra jurupari √© uma corruptela de jurupoari, que se traduziria ao p√© da letra por boca, m√£o, sobre; tirar da boca. Montoya fornece esta frase: ‚Äėche jurupoari‚Äô, tirou-me a palavra da boca. O dr. Batista Caetano traduz a palavra por: ‚Äėser que vem √† nossa rede‚Äô, isto √©, ao lugar em que dormimos. Seja ou n√£o corruptela a palavra, escreve o autor de ‚ÄėO selvagem‚Äô, qualquer das duas tradu√ß√Ķes est√° conforme a tradi√ß√£o ind√≠gena, e, no fundo, exprime a id√©ia supersticiosa dos naturais, segundo a qual este ente estranho visita os homens em sonho e causa afli√ß√Ķes tanto maiores, quanto, trazendo-lhes imagens de perigos horr√≠veis, os impede de gritar, isto √©, tira-lhes faculdade da voz’

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

Publicado no Recanto das Letras em 31/05/2007

Código do texto: T508741

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