A Lenda do Jurupari

7034

Jurupari é a figura que aparece nas lendas tupis e também no folclore de tribos indígenas das mais diversas procedências. Ele é o legislador, filho de uma virgem, concebido por meio do sumo do mapati (imbaúba-de-cheiro) quando ela comia essa fruta no dia em que sua ingestão era rigorosamente proibida às donzelas. Jurupari foi o mensageiro do Sol na Terra, cujos costumes começou a reformar a fim de encontrar nela uma mulher tão perfeita que fosse digna de casar com o astro-rei. Mas não encontrou até hoje uma criatura nessas condições, e provavelmente não a encontrará jamais, mas apesar disso prossegue em sua busca porque essa é a missão que lhe foi confiada.

A Lenda do Jurupari
A Lenda do Jurupari

Diz a lenda que se deve a Jurupari uma série de benefícios para o sexo masculino. Quando chegou à Terra o governo aqui era exercido pelas mulheres, mas ele o transferiu para os homens alegando que o matriarcado contrariava as leis do Sol. E para que os do sexo masculino se tornassem independentes das do sexo feminino, instituiu grandes festejos em que nenhuma mulher poderia tomar parte, e segredos que somente eles poderiam conhecer. Os usos, leis e costumes que o herói solar criou são obedecidos até hoje por várias tribos da bacia amazônica.

Segundo outra versão, Jurupari é um ente estranho que visita os seres humanos durante o sono e os assusta com a visão de perigos horríveis, tremendos, impedindo-os ao mesmo tempo de gritar por socorro. Muitos o confundem com o Anhangá, gênio ou espírito que os indígenas brasileiros acreditavam ser protetor dos animais terrestres, mas perseguidor dos humanos. Todos, porém, concordavam que Jurupari e Anhangá representavam uma força diabólica, mas a maioria dos relatos colhidos sobre eles sugere que a crença quanto aos dois resultava dos pesadelos que atribulavam os índios durante o sono.

Loading...

Foram os jesuítas que deram a Jurupari a característica de demônio. Como eram extremamente supersticiosos, os indígenas aceitaram sem discutir a versão de que espíritos do mal criavam as imagens noturnas que os assustavam e lhes perturbava o sono. E tanto isso é verdade que a designação Jurupari pode ser traduzida como “ser que vem à nossa rede”, que é onde os índios dormiam. Ou seja, ela traduz a idéia de que alguém visita os homens à noite, enquanto eles dormem, trazendo visões de muitos perigos e provocando com isso grandes aflições. Em outras palavras, nada mais, nada menos, que um pesadelo.

Abordando esse mesmo assunto, Osvaldo Orico (1900-1981), professor, diplomata, poeta e ensaísta, escreve o seguinte: “Tendo incutido no ânimo dos selvagens que o espírito que os visitava, à noite, outra coisa não era senão o espírito mau, o filho das trevas, é natural que os jesuítas nos certifiquem de que essa era a crença dos naturais. Efetivamente, segundo testemunho de quase todos os missionários, jurupari é sinônimo de demônio. Em ‘Mitos ameríndios’, tive ocasião de assinalar o motivo da analogia. Transcreverei aqui o que se indicou sobre o curioso mito e que é a parte mais interessante de sua legenda”:

“Entende Couto de Magalhães que a palavra jurupari é uma corruptela de jurupoari, que se traduziria ao pé da letra por boca, mão, sobre; tirar da boca. Montoya fornece esta frase: ‘che jurupoari’, tirou-me a palavra da boca. O dr. Batista Caetano traduz a palavra por: ‘ser que vem à nossa rede’, isto é, ao lugar em que dormimos. Seja ou não corruptela a palavra, escreve o autor de ‘O selvagem’, qualquer das duas traduções está conforme a tradição indígena, e, no fundo, exprime a idéia supersticiosa dos naturais, segundo a qual este ente estranho visita os homens em sonho e causa aflições tanto maiores, quanto, trazendo-lhes imagens de perigos horríveis, os impede de gritar, isto é, tira-lhes faculdade da voz’

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

Publicado no Recanto das Letras em 31/05/2007

Código do texto: T508741

Comentários

comentários