Arque√≥logos descobrem ‚Äúcemit√©rio‚ÄĚ em Tef√© com urnas funer√°rias ind√≠genas que podem ter mais de 500 anos

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Em meio √† terra escavada, os tra√ßos cer√Ęmicos do que seria um tipo de urna come√ßaram a se mostrar. O trabalho minucioso dos arque√≥logos revelou n√£o apenas uma, mas nove urnas funer√°rias de uma popula√ß√£o ind√≠gena que habitou essa por√ß√£o da Amaz√īnia h√° cerca de 500 anos, pr√≥ximo ao contato com os europeus. No Brasil, √© a primeira vez que cientistas localizam e escavam urnas funer√°rias da chamada Tradi√ß√£o Pol√≠croma da Amaz√īnia diretamente do solo. A expedi√ß√£o foi coordenada por pesquisadores do Instituto Mamirau√°. Confira um v√≠deo sobre a descoberta:

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

Conhecida pela decora√ß√£o com uso de pinturas vermelhas e pretas, a Tradi√ß√£o Pol√≠croma da Amaz√īnia √© um conjunto de cer√Ęmicas que fazem parte da pr√©-hist√≥ria da regi√£o.

‚ÄúA Tradi√ß√£o Policroma da Amaz√īnia √© um estilo que tem larga abrang√™ncia nas terras baixas da Am√©rica do Sul, presente em um eixo oeste-leste desde o sop√© (das Cordilheiras) dos Andes at√© a boca do rio Amazonas e tamb√©m √© vista nos afluentes do rio Amazonas/Solim√Ķes‚ÄĚ, afirma a pesquisadora M√°rjorie Lima, do Laborat√≥rio de Arqueologia do Instituto Mamirau√°.

‚ÄúUrnas funer√°rias como as que foram encontradas s√£o comuns pela Amaz√īnia brasileira e nas partes amaz√īnicas de pa√≠ses como Peru e Equador‚ÄĚ, afirma o arque√≥logo do Instituto Mamirau√°, Eduardo Kazuo Tamanaha. ‚ÄúMas os pesquisadores costumam receb√™-las da m√£o de moradores do local, que de fato encontram os artefatos e os retiram da terra. Agora, escavar e encontrar uma cova com as urnas dessa cultura, do jeito que estavam, e realizar todo o registro cient√≠fico, √© algo in√©dito‚ÄĚ.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

Comunidade amaz√īnica guarda ‚Äúcemit√©rio‚ÄĚ de ind√≠genas do passado

A descoberta aconteceu em julho na pequena comunidade Tauary, localizada na regi√£o central do Amazonas.. As urnas estavam enterradas a uma profundidade de 40 cent√≠metros da superf√≠cie, dentro de uma √°rea de 4 metros quadrados nas imedia√ß√Ķes da escola comunit√°ria. ‚ÄúN√≥s descobrimos mais de uma por dia, primeiro veio uma, come√ß√°vamos a limpar, a√≠ surgia outra ao lado, elas foram aparecendo como um efeito domin√≥‚ÄĚ, conta Eduardo Kazuo.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

A car√™ncia de vest√≠gios, como a terra preta de √≠ndio (solo muito f√©rtil e caracter√≠stico de antigas ocupa√ß√Ķes humanas na Amaz√īnia), e fragmentos de cer√Ęmica indicam que aquela seria uma √°rea espec√≠fica do s√≠tio arqueol√≥gico, possivelmente reservada ao enterro de corpos, como um cemit√©rio da antiga sociedade que ali vivia.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

‚ÄúAs urnas funer√°rias fazem parte das pr√°ticas mortu√°rias de muitos grupos ind√≠genas. Elas eram mais comuns no passado, mas ainda h√° relatos de alguns sepultamentos em √©pocas recentes sendo feitos em urnas, mas tamb√©m em cestarias ou redes. Elas s√£o muito variadas e est√£o intimamente ligadas √†s cren√ßas e religi√Ķes praticadas, parecido com o que √© praticado nos cemit√©rios das cidades‚ÄĚ, ressalta Anne Rapp Py-Daniel, arque√≥loga e especialista no estudo de urnas arqueol√≥gicas na Amaz√īnia, que tamb√©m participou das escava√ß√Ķes.

Padr√£o curioso no enterro das urnas intriga os cientistas

A maneira como as urnas foram encontradas chamou a aten√ß√£o dos arque√≥logos. ‚ÄúAs urnas funer√°rias t√™m rostos desenhados, o interessante √© que nenhum desses rostos estava ‚Äėolhando‚Äô para outro. Se uma urna foi enterrada com o rosto para cima, a urna ao lado dela estava ‚Äėolhando‚Äô para baixo, e a seguinte estava enterrada de lado. √Č como se elas n√£o quisessem olhar uma para a outra. As urnas seguiam uma ordem, claramente elas foram enterradas daquele jeito e foi intencional‚ÄĚ, comenta o pesquisador do Instituto Mamirau√°.

O conjunto das urnas arqueol√≥gicas tamb√©m se diferencia pela variedade entre tipos e adornos nos acabamentos cer√Ęmicos, como a pintura de cabe√ßas humanas, formas animais e a presen√ßa ou aus√™ncia de bancos, onde as urnas podiam ser colocadas.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

‚ÄúAlguns grupos ind√≠genas do passado representavam a identidade dos mortos ou s√≠mbolos (de entidades, de deuses, de animais mitol√≥gicos, etc.), que acreditavam ser importantes, nessas urnas. Ou seja, elas al√©m de recept√°culo para os mortos, tamb√©m contam diferentes est√≥rias sobre a sociedade que as produziram e no que ela acreditava. Infelizmente, na grande maioria das vezes, os arque√≥logos n√£o t√™m o ‚Äėdicion√°rio‚Äô que permita fazer uma tradu√ß√£o exata desses s√≠mbolos‚ÄĚ, conta Anne Rapp Py-Daniel.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

O motivo ou motivos dessa organização curiosa e para tantos detalhes ainda são desconhecidos, mas a equipe de especialistas espera encontrar pistas a partir de análises mais aprofundadas no Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, localizado na cidade de Tefé, no Amazonas.

‚ÄúEsperamos ter essas informa√ß√Ķes a partir das pr√≥prias urnas, associando ao local em que elas estavam depositadas, a sua decora√ß√£o, com a morfologia, o conte√ļdo que tinham dentro e juntar todos esses fatores em busca de algum sentido para elas estarem ali da forma que elas estavam‚ÄĚ, explica Eduardo Kazuo.

Urnas foram enterradas sobre a ‚Äúcama‚ÄĚ de civiliza√ß√£o ainda mais antiga

Com base nas avalia√ß√Ķes preliminares do material e na profundidade das covas, os arque√≥logos acreditam que as urnas podem ter sido enterradas ao mesmo tempo. ‚ÄúSe fossem momentos diferentes de enterramento, as urnas estariam em alturas distintas. √Č como se tivessem escavado uma √ļnica cova e depositado uma urna ao lado da outra‚ÄĚ, aponta o arque√≥logo.

A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá
A expedição arqueológica foi conduzida pelo Instituto Mamirauá / Foto : Acervo do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá

A escava√ß√£o tamb√©m revelou sinais de uma sociedade ainda mais antiga que aquela que produziu as urnas funer√°rias. S√£o fragmentos de cer√Ęmica que pertencem a um grupo que habitou a mesma regi√£o, mas em um tempo diferente. ‚ÄúA urnas do Tauary s√£o pr√≥ximas ao ano 1500 depois de Cristo. Mas essa outra cer√Ęmica encontrada aparenta ser muito mais antiga, com uma diferen√ßa de 40 cent√≠metros de profundidade em rela√ß√£o ao per√≠odo das urnas, o que indica uma passagem grande de tempo‚ÄĚ, conta.

‚ÄúNossa hip√≥tese √© que quando o grupo que escavou os buracos para depositar as urnas, eles encontraram esse material muito mais antigo, pegaram todo esse material, espalharam e fizeram quase que um piso de cer√Ęmica, colocando as urnas em cima dele. √Č uma cer√Ęmica mais antiga que provavelmente n√£o tem a ver com os antepassados deles‚ÄĚ, acredita o pesquisador do Instituto Mamirau√°.

Tauary, lar de riquezas do passado da Amaz√īnia

Na comunidade Tauary, existe um grande sítio arqueológico, cuja real extensão ainda está sendo levantada pelos arqueólogos.

Em 2014, as primeiras urnas funer√°rias foram encontradas no lugar e, quatro anos depois, os pesquisadores retornaram para mais investiga√ß√Ķes sobre ‚Äúa trajet√≥ria hist√≥rica de ocupa√ß√£o do Tauary e os vest√≠gios encontrados, sejam materiais cer√Ęmicos ou bot√Ęnicos, na terra ou sobre a terra, no presente e no passado‚ÄĚ, como define Eduardo Kazuo, que √© coordenador do Laborat√≥rio de Arqueologia do Instituto Mamirau√°.

O Instituto Mamirau√° √© uma unidade de pesquisa do Minist√©rio da Ci√™ncia, Tecnologia, Inova√ß√Ķes e Comunica√ß√Ķes (MCTIC). Trabalharam juntos na expedi√ß√£o arqueol√≥gica o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de S√£o Paulo (MAE-USP), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz√īnia (INPA), a Universidade Federal do Oeste do Par√° (UFOPA), a Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e a Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.

As atividades têm financiamento da Fundação Gordon and Betty Moore.
Texto: Jo√£o Cunha / Mamirau√°

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