Cantora indígena canta Hino Nacional em dialeto ticuna, em Manaus

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Natural da região do Alto Solimões, na comunidade ticuna Umariaçu II, localizada em Tabatinga, município do Amazonas distante 1.108 km de Manaus, Djuena Tikuna, de 28 anos, mora há 20 anos em Manaus e seu último feito como cantora foi interpretar o Hino Nacional do Brasil no dialeto ticuna.
Segundo Djuena, a oportunidade surgiu quando ela conheceu o professor bilíngüe Sansão Flores Tikuna, da comunidade ticuna Filadélfia, localizada em Benjamin Constant, distante 1.121 km da capital. “Quando ele soube que eu era uma cantora ficou fascinado e decidiu traduzir o Hino Nacional para o nosso dialeto. O processo todo durou três meses”, contou a indígena.

Para ela, o início não foi fácil. “Por ser um dialeto um tanto difícil, ficava com medo de errar o Hino. Mas, passado esse tempo, já me sinto mais segura”, afirmou a cantora, que recebeu em mãos o Hino Nacional em dialeto ticuna no ano de 2009. “Desde então, já apresentei o Hino brasileiro em diversos eventos, como na Rio +20, que foi um dos que mais me marcou”, disse a artista amazonense.

Sobre a recepção do público ante a versão ticuna do Hino, Djuena disse serem as melhores possíveis. “O público acha diferente, exótico até, uma índia cantar em sua língua materna o Hino Nacional”, contou. Contudo, a cantora disse que, como artista, prefere ser reconhecida pelo talento que carrega na voz. “Não gosto de ser reconhecida somente como a ‘cantora indígena’, quero que as pessoas prestem atenção na minha voz”, contestou ela.

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Quando questionada a respeito dos sonhos que possui, a cantora mostrou-se modesta. “Sei que não vou ficar rica, nem quero, meu objetivo é outro. Meu objetivo é preservar minhas tradições, minha cultura, e repassá-las adiante para meus filhos e netos. E, também, ajudar financeiramente com o que eu puder a minha comunidade”, disse ela.

Única da família a ser cantora profissional, Djuena disse que para tanto teve de batalhar muito para seguir na profissão. “Fui a única que foi atrás de uma carreira artística, que foi atrás de patrocínio, de produção. Saí divulgando meu trabalho e a cultura ticuna”, comentou. Para ela, é importante que as crianças indígenas compartilhem do mesmo sonho de se tornarem cantoras, vejam o exemplo dela e nunca desistam.

Morando em Manaus há cerca de 20 anos, Djuena acha importante a mudança para a capital. “Amo o lugar em que nasci e cresci, mas acho que, para quem quer crescer na vida, é importante vir para a capital tentar algo melhor. E, estando aqui, seu público aumenta e, naturalmente, sua mensagem vai ser transmitida para mais pessoas”, explicou Djuena.

Inspirações
“Minhas inspirações vem todas do meu povo, os ticunas são muito criativos. Meus pais vivem cantando, toda minha família gosta de cantar, apesar de ninguém, além de mim, fazer isso profissionalmente. Cresci no meio do canto e quero transmitir isso pras crianças de agora. As pessoas que mais me inspiraram foram meus pais, meu amor pelas artes vem deles”, disse a ticuna.

Djuena Tikuna disse ainda que as inspirações para compor as músicas vem do dia-a-dia. “Quando eu estou andando por aí, se vem uma melodia na minha cabeça, crio logo uma letra que fale de união de povos, da preservação da natureza, fale do amor pelas pessoas, pelas crianças”, afirmou a compositora e cantora indígena.

Preconceito
Ao longo de 25 anos, Djuena disse ter sido vítima de preconceito somente uma vez, há muito tempo. “Foi logo quando cheguei em Manaus, tinha oito anos e não sabia falar português direito. Meus colegas de classe e minha professora, por saberem que eu era indígena, me tratavam como se eu fosse burra”.

Para a artista, no Brasil não se comemora o Dia do Índio. “A gente luta por dias mais justos pro nosso povo. Porque estão acabando com a nossa terra. Sou cantora, mas como cantora indígena acabo me envolvendo nessas questões políticas”.

Projetos futuros
Como principal projeto para 2013, Djuena disse ser a gravação do primeiro CD solo, somente com músicas autorais, todas cantadas em dialeto ticuna. “Já tenho um estúdio onde irei gravar, mas preciso de patrocínio. Poderia gravar um cd ‘piratinha’, mas quero algo profissional, com uma qualidade boa para as pessoas gostarem e divulgarem cada vez mais meu trabalho”.

A artista indígena disse ainda que já tem o repertório pronto. “Inclusive uma das musicas gravadas estará na trilha sonora do curta-metragem ‘Strip Solidão’, da diretora Flávia Abtibol”, complementou.

Cantora indígena canta Hino Nacional em dialeto ticuna, em Manaus
Djuena canta Hino Nacional em dialeto ticuna, em Manaus

reportagem: G1 Amazonas

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