Entrevista com o arquiteto que projetou a Arena da Amaz√īnia

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Recentemente voltou-se a criar pol√™mica sobre a constru√ß√£o do Est√°dio Arena da Amaz√īnia em Manaus, ok, concordo que √© um est√°dio fara√īnico, por√©m, isso n√£o d√° o direito a condenar um Estado devido a m√° fase do seu futebol regional, ao menos penso. O est√°dio de Manaus ser√° nos moldes dos grandes est√°dios europeus, talvez isso mexa com o ego de algumas pessoas de fora, visto que seus est√°dios ser√£o basicuz√£o. O formato da Arena da Amaz√īnia (alus√£o a um grande paneiro) vem inspirado tamb√©m de outros est√°dios. Talvez o que mais se aproxime seja o est√°dio alem√£o chamado Allianz Arena.

Allianz Arena em Munique - ALE e Arena da Amaz√īnia em Manaus - BRA
Allianz Arena em Munique – ALE e Arena da Amaz√īnia em Manaus – BRA

O padr√£o de conforto nos est√°dios no Brasil p√≥s-Copa dever√° mudar, para melhor. Obras como Arena Amaz√īnia, Arena Fonte Nova (BA) e Arena Pantanal (MT) ser√£o muito mais parecidas com a alem√£ Allianz Arena do que com o Pacaembu ou a Ilha do Retiro (PE).

Isso n√£o √© coincid√™ncia, o arquiteto Ralph Amann , respons√°vel pelo projeto do est√°dio de Manaus, fala sobre o projeto da Arena da Amaz√īnia em uma entrevista publicada no portal da copa, essa entrevista √© antiga (afinal o projeto √© antigo), por√©m, muitas pessoas se quer a conhecem, digo, jornalistas, pois a popula√ß√£o tamb√©m, n√£o tem muito interesse em saber quem projetou ou quem colaborou, quer saber √© de ver GOL.

Parte das novas arenas adota como medida protetiva contra a invasão do gramado o conhecido fosso de concreto, presente em praças esportivas brasileiras, como o Mineirão, que manterá um fosso de três metros, ou o Maracanã. Mas há também novidades absolutas e até a inexistência total de obstáculos físicos entre a plateia e o campo.

Existe a Lei Geral da Copa, sancionada pela presidentE Dilma, que visa cumprir as garantias assumidas pelo governo brasileiro com a Federa√ß√£o Internacional de Futebol (Fifa) e vale tamb√©m para a Copa das Confedera√ß√Ķes, que ser√° realizada agora em 2013. Sobre o valor dos ingressos ser√£o aplicados 4 pre√ßos de acordo com a categoria. A “categoria 4” ter√° entradas a US$ 50, mas estudantes, idosos e benefici√°rios de programas de transfer√™ncia de renda pagar√£o metade desse valor. Os ingressos da “categoria 3” custar√£o cerca de US$ 100, a “categoria 2” dever√° ter entradas a US$ 450, e os ingressos da “categoria 1” custar√£o em torno de US$ 900.

Dito, isto, vamos ao que interessa, a entrevista com o arquiteto que projetou a Arena da Amaz√īnia.

Ralf Amann, do GMP Architects (crédito: Time Arquitetos da Copa)
Ralf Amann, do GMP Architects (crédito: Time Arquitetos da Copa)
Como você vê a possibilidade de os estádios brasileiros incorporarem tecnologias limpas, dentro do conceito Green Goal, da Fifa?
O Green Goal prioriza tr√™s metas: transporte, redu√ß√£o de res√≠duos e economia de √°gua e energia el√©trica. Isso se traduz no uso de transporte coletivo, no uso de materiais recicl√°veis e em evitar, o m√°ximo poss√≠vel, a gera√ß√£o de lixo. Outra quest√£o √© tentar valorizar a cidade com interven√ß√Ķes que promovam o interc√Ęmbio social, especialmente no entorno. Sustentabilidade tamb√©m significa a recupera√ß√£o de √°reas degradadas, que n√£o √© o caso de Manaus. Enfim, o principal √© que devemos entender que sustentabilidade n√£o √© apenas tecnologia, mas tamb√©m envolve¬†aspectos financeiros e sociais.
A Arena Amaz√īnia ser√° um est√°dio de futebol que est√° sendo constru√≠do na cidade de Manaus, estado do Amazonas, no local antes ocupado pelo Est√°dio Vivaldo Lima (O Vivald√£o)
A Arena Amaz√īnia ser√° um est√°dio de futebol que est√° sendo constru√≠do na cidade de Manaus, estado do Amazonas, no local antes ocupado pelo Est√°dio Vivaldo Lima (O Vivald√£o)
O Vivaldão tem projetos para a geração de energia solar?
N√£o est√° previsto, mas poder√° ter. √Č importante dizer que as placas fotovoltaicas n√£o s√£o sempre o melhor rem√©dio para tudo. No Brasil, 90% da energia el√©trica √© limpa, gerada por hidrel√©tricas, e seu custo tamb√©m √© baixo. A discuss√£o sobre a energia solar √© inevit√°vel hoje em dia, s√≥ que ca√≠mos novamente na quest√£o da sustentabilidade financeira. No momento, a quest√£o da energia solar √© mais um apelo pol√≠tico do que econ√īmico, porque √© dif√≠cil que ela concorra com a energia limpa daqui.
No caso do Vivaldão não é viável?
Estamos estudando essa possibilidade, mas aplicamos esses conceitos também no estádio de Brasília e no Mineirão. Em Brasília, por exemplo, devido à forma relativamente plana da cobertura, há mais espaço para a instalação de painéis fotovoltaicos. No Vivaldão a arquitetura permite, mas com técnicas diferentes. Existe, por exemplo, a tecnologia de elementos fotovoltaicos que são integrados em mantas ópticas de cobertura ou em placas de vidro, transparentes.

No Brasil, 90% da energia el√©trica √© limpa, gerada por hidrel√©tricas, e seu custo tamb√©m √© baixo. A¬†discuss√£o da energia solar √© inevit√°vel hoje em dia, mas depende da sustentabilidade financeira. No momento, a quest√£o da energia solar tem¬†mais¬†apelo pol√≠tico e educativo¬†do que econ√īmico

Como funciona o sistema de reciclagem de √°gua do Vivald√£o?
Quando se fala nesse assunto, geralmente pensamos na capta√ß√£o da √°gua da chuva que cai na cobertura. Nesse caso, ela √© estocada numa cisterna subterr√Ęnea e tem v√°rios usos. Um deles √© a irriga√ß√£o do campo. Mas, para isso, essa √°gua dever√° ser tratada, porque o gramado √© uma “ci√™ncia em si mesmo”. Existem engenheiros especializados apenas em gramados, e guardam suas f√≥rmulas como se fossem a receita da Coca-Cola.

Que outros fins pode ter a √°gua reciclada?
Ela pode ser usada em vasos sanitários e também para aquecimento e resfriamento do sistema de ar-condicionado, o que economiza energia elétrica. Para esse sistema em particular também pode ser usada água do lençol freático, que é uma coisa de que poucos falam. Hoje em dia é recomendável fazer pisos e revestimentos permeáveis. Eles determinam a quantidade de água que será armazenada e a que vai para a irrigação do solo.

E a reciclagem do lixo, gerado dentro do estádio? O que o projeto prevê para lidar com essa situação?
A reciclagem não é feita no estádio, ele é levado para uma usina de reciclagem. O que está sendo previsto para o Vivaldão são pontos estratégicos para coleta e separação de lixo. Também está previsto que as empresas que participem do evento (patrocinadoras da Fifa) também utilizem materiais recicláveis.

O custo do Vivald√£o gira em torno de R$ 580 milh√Ķes. Quanto desse valor ser√° usado nesses sistemas?


A quest√£o da energia limpa n√£o envolve valores extraordin√°rios. √Č simplesmente usar de maneira inteligente e l√≥gica a tecnologia de √ļltima gera√ß√£o dispon√≠vel. Energia fotovoltaica √© o √ļnico item em que h√° investimento adicional. O resto s√£o instala√ß√Ķes mais ou menos comuns. A quest√£o √© o know-how que voc√™ precisa para aplicar essa tecnologia.

Projeto Arena da Amaz√īnia, est√°dio de Manaus para o mundial da FIFA 2014
Projeto Arena da Amaz√īnia, est√°dio de Manaus para o mundial da FIFA 2014

A construção de uma cobertura no estádio não entra em contradição com o conceito de sustentabilidade, já que ela usa mais material e gera custos de manutenção?


Mas qual a alternativa? Est√°dios sem cobertura? Em primeiro lugar, a Fifa recomenda fortemente a instala√ß√£o das coberturas. Esta √© uma tend√™ncia que observamos das √ļltimas Copas para c√°. Em outras Copas havia est√°dios sem cobertura, mas isso est√° se transformando. Na Alemanha, por exemplo, todos os est√°dios t√™m cobertura.

A cobertura também interfere na qualidade do gramado, que é um dos itens mais caros do estádio. Como minimizar os prejuízos?


N√≥s fazemos estudos de incid√™ncia da luz solar no est√°dio de modo que o gramado sempre receba essa luz. Em est√°dios onde o raio de incid√™ncia solar √© mais baixo, aumentamos o grau de elementos transl√ļcidos da cobertura. Em Manaus, por exemplo, usaremos membranas de PTFE, que possui v√°rios graus de translucidez.

    Com a meta de tornar a Arena da Amaz√īnia a primeira edifica√ß√£o do Amazonas a obter a certifica√ß√£o LEED (sigla em ingl√™s para Lideran√ßa em Energia e Design Ambiental) concedida pelo Green Building Council para constru√ß√Ķes verdes, o projeto da Arena da Amaz√īnia atendeu exig√™ncias ambientais desde a etapa de demoli√ß√£o, como o reaproveitamento de 95% dos materiais removidos e demolidos do antigo Est√°dio Vivaldo Lima.
Com a meta de tornar a Arena da Amaz√īnia a primeira edifica√ß√£o do Amazonas a obter a certifica√ß√£o LEED (sigla em ingl√™s para Lideran√ßa em Energia e Design Ambiental) concedida pelo Green Building Council para constru√ß√Ķes verdes, o projeto da Arena da Amaz√īnia atendeu exig√™ncias ambientais desde a etapa de demoli√ß√£o, como o reaproveitamento de 95% dos materiais removidos e demolidos do antigo Est√°dio Vivaldo Lima.

Qual foi o critério para a escolha dos materias que serão usados na construção do Vivaldão?
Para n√≥s √© importante sempre usar o m√°ximo poss√≠vel o material que existe no pa√≠s, mas principalmente na regi√£o. Isso economiza custos. A √ļnica coisa que n√£o existe aqui √© a membrana de PTFE. Mas est√° sendo estudada¬†sua produ√ß√£o no pa√≠s. Em Manaus √© fundamental usar o m√°ximo poss√≠vel de concreto, porque existe uma alta capacidade das empresas brasileiras para trabalhar com esse material. A cobertura √© de vigas quadrangulares de a√ßo, feitas sob medida, mas por empresas brasileiras.

O antigo Vivaldão será demolido. O que será feito com o entulho da demolição?


Uma parte será usada na construção, e outra para fazer aterros em locais próximos ao estádio. O objetivo é reutilizar o máximo do material no próprio local

O arquiteto autor do projeto Arena da Amaz√īnia √© o Ralf Amann do escrit√≥rio alem√£o GMP, arquiteto muito bem conceituado. O novo est√°dio dever√° ser poliesportivo, com cobertura retr√°til e uma capacidade estimada em torno de 47.000 pessoas.
O arquiteto autor do projeto Arena da Amaz√īnia √© o Ralf Amann do escrit√≥rio alem√£o GMP, arquiteto muito bem conceituado. O novo est√°dio dever√° ser poliesportivo, com cobertura retr√°til e uma capacidade estimada em torno de 47.000 pessoas.

Voc√™¬†considera sustent√°vel¬†usar tecnologias avan√ßadas em um lugar como Manaus, que tem problemas sociais graves como os de saneamento b√°sico? Ser√° que Manaus precisaria de um est√°dio de 500 milh√Ķes em vez de resolver seus problemas mais b√°sicos?


Isso está sendo feito paralelamente. Existe o Prosamin (programa estadual), internacionalmente elogiado, de saneamento e moradia, construindo casas e apartamentos para a classe baixa com alto nível de qualidade. Esses investimentos continuarão. O estádio faz parte de uma visão mais ampla. O evento é muito importante para a visibilidade internacional de Manaus e ajudará a atrair investimentos que trarão mais renda que o custo do estádio.

Já que Manaus não tem campeonatos de futebol muito ativos, é possível evitar que o Vivaldão fique parado depois da Copa?


N√≥s somos os projetistas do est√°dio e deixamos de atuar assim que ele estiver pronto. Agora, pela nossa experi√™ncia, sabemos que hoje em dia os est√°dios n√£o s√£o usados s√≥ para futebol. Eventos que trazem renda, como shows, exposi√ß√Ķes, cultos religiosos e outras modalidades esportivas podem ser explorados.

Nossa experi√™ncia mostra que o atletismo √© mais um obst√°culo do que um fator de rentabilidade nos est√°dios, porque suas instala√ß√Ķes exigem mais √°rea e isso aumenta muito o custo da obra

Existe alguma exig√™ncia para transformar o Vivald√£o em est√°dio de m√ļltiplo uso, principalmente para receber outras modalidades esportivas?


Isso est√° sendo uma exig√™ncia. Mas n√£o o atletismo, por exemplo. Segundo nossa experi√™ncia, o atletismo √© mais um obst√°culo do que um fator de rentabilidade nos est√°dios, porque suas instala√ß√Ķes exigem mais √°rea e isso aumenta muito¬†o custo da obra.

Haverá espaço para lojas e outros equipamentos que gerem renda para o estádio?
N√£o dentro do est√°dio, mas o governo est√° estudando op√ß√Ķes de com√©rcio no¬†entorno. O est√°dio est√° assentado numa √°rea que ter√° equipamentos de esporte e de lazer, portanto altamente interessante para investimentos privados em com√©rcio e emprendimentos imobili√°rios.

Para concluir, uma pergunta sobre a fidelidade ao projeto. No Brasil √© comum haver modifica√ß√£o dos projetos de arquitetura durante as obra. Sob este aspecto, como foi a experi√™ncia da GMP na Alemanha, √Āfica do Sul e China?


Cada pa√≠s tem a sua caracter√≠stica e a sua cultura. Em alguns pa√≠ses o acompanhamento √© mais forte. Na √Āfrica do Sul e na China mantivemos equipes no local. Isso n√£o √© o mesmo que o gerenciamento da obra, mas uma quest√£o de controle de qualidade. No Brasil estamos prevendo a mesma coisa.

Com arquitetura inspirada na floresta amaz√īnica que rodeia a cidade de Manaus, a Arena da Amaz√īnia ser√° um est√°dio totalmente novo, constru√≠do de acordo com rigorosas premissas de sustentabilidade e localizado estrategicamente entre o aeroporto e o centro hist√≥rico da capital amazonense.
Com arquitetura inspirada na floresta amaz√īnica que rodeia a cidade de Manaus, a Arena da Amaz√īnia ser√° um est√°dio totalmente novo, constru√≠do de acordo com rigorosas premissas de sustentabilidade e localizado estrategicamente entre o aeroporto e o centro hist√≥rico da capital amazonense.

 

entrevista por : Rafael Massimino – S√£o Paulo
postado em 06/07/2009 12:43 h
atualizado em 07/09/2010 10:51 h
kibado em 16/04/2013 6:26h

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