Lenda Baré, uma história de amor

1551

A lenda baré é uma linda história de amor pouco conhecida pelos amazonenses. Como toda boa lenda, mistura-se entre fatos reais e imaginário coletivo.

A lenda conta que o territ√≥rio da tribo Bar√© estendia-se de Manaus a todo o m√©dio e alto rio Negro e pelo canal do Casiquiare, at√© algumas aldeias no rio Pacimoni. Situava-se nos limites dos antigos imp√©rios espanhol e portugu√™s, regi√£o que foi cen√°rio de cont√≠nuas migra√ß√Ķes e disputas territoriais.

Compreendia do Amazonas ao delta do Orenoco, controlando o alto rio Negro. Oriundos da fam√≠lia ling√ľ√≠stica Aruak, hoje falam uma ?l√≠ngua geral? difundida pelos carmelitas no per√≠odo colonial, o Nheengatu, forma simplificada do Tupi antigo, adaptado e amplamente difundido pelos primeiros mission√°rios.

Os Bar√© integram a √°rea cultural conhecida como nordeste amaz√īnico, que abrange a linha fronteiri√ßa entre o Brasil e a Col√īmbia e faz um desenho que lembra uma cabe√ßa de cachorro, habitada tradicionalmente h√° pelo menos dois mil anos por etnias que falam idiomas pertencentes a tr√™s fam√≠lias ling√ľ√≠sticas: Aruak, Maku e Tukano.

A despeito do multiling√ľismo e de diferen√ßas culturais, as 27 etnias que habitam a regi√£o ? 22 presentes no Brasil ? comp√Ķem uma mesma √°rea cultural, estando em grande medida articuladas numa rede de trocas identificadas no que diz respeito √† cultura material, √† organiza√ß√£o social e √† vis√£o de mundo. Para certos estudiosos, Bar√© significa ‘companheiro’, enquanto outros opinam que a palavra poderia derivar de ‘bari’, que significa ‘homens brancos’.

Para esta etnia, no princípio do mundo, tudo era assexuado, inclusive as estrelas. Mudanças políticas e culturais nessa sociedade deram origem aos grupos arahuacos de hoje, os warekena, os wakuénai, os baré e os baniwa.

Origem do povo Baré.

Segundo narrativa de Braz de Oliveira Fran√ßa, ex-presidente da Federa√ß√£o das Organiza√ß√Ķes Ind√≠genas do Rio Negro (Foirn) e atual administrador-adjunto regional da Funda√ß√£o Nacional do √ćndio (Funai) de S√£o Gabriel da Cachoeira, ?antigamente, ainda no in√≠cio do mundo, entrou no rio Negro, vindo do rio maior um grande navio, cheio de gentes no seu interior e cada um com seu par.

Apenas um homem viajava neste mesmo navio, pelo lado de fora, pois o mesmo não foi aceito dentro por não estar acompanhado. Ao passar pela foz do rio Negro viajava tão próximo das margens do rio, que os passageiros viram que havia muitas pessoas na margem, inclusive o homem que viajava pelo lado de fora, o qual não resistindo à tentação, logo se jogou para fora e nadou para a margem do rio.

Ao alcan√ßar a beira, ele foi agarrado por um grupo de mulheres guerreiras que tinham o costume de aceitar apenas mulheres em seu grupo. Quando tinham necessidade de ter filhos, aprisionavam machos de outras tribos e dessa rela√ß√£o, se nascesse mulher elas criavam, e se fosse homem elas matavam. Esse seria o destino do homem que nadou at√© a margem, para quem deram o nome de ‘Mira-B√≥ia’ (Gente-cobra), se n√£o fosse sua estrutura f√≠sica ser um pouco diferente das que elas j√° conheciam, por isso resolveram poupar-lhe a vida depois de terem submetido Mira-b√≥ia a um rigoroso teste de masculinidade.

As guerreiras ent√£o prepararam uma grande festa na primeira Lua Cheia, grande fogueira no centro do p√°tio foi feita, muitas frutas e mel silvestre foram coletados. A festa com os rituais rolaram durante oito dias.

No fim da festa, o grupo tomou a seguinte decisão: Mira-bóia ficaria morando com um grupo com a condição de gerar um filho com cada uma delas. Teria que dormir três noites com uma mulher que estivesse na época do seu período fértil.

Terminando essa miss√£o, ele seria executado, assim como todo filho que nascesse homem. Mira-b√≥ia ent√£o passou a conviver com o grupo por um longo per√≠odo, nessas condi√ß√Ķes, at√© que gerasse filho com a √ļltima mulher, e essa √ļltima era a ‘Tipa’ (Rouxinol), uma jovem muito bela que estava no primeiro per√≠odo de menstrua√ß√£o.

Ela, por ser a mais nova, a mais bonita e muito querida pelo grupo, teve o privilégio de morar com Mira-bóia até que sua gestação aparecesse visualmente para o resto do grupo. Devido a isso Tipa e Mira-bóia passaram a viver uma vida a dois e quando ela percebeu que já estava gestante, descobriu-se também perdidamente apaixonada pelo companheiro.

O mesmo acontecia com Mira-bóia. Como o destino do nosso herói seria a morte, ela conseguiu convencer o seu já considerado marido para uma fuga. No primeiro período de Lua Nova ele e ela fugiram, aproveitando o momento em que as guerreiras saíram para caçar e coletar mel e frutas, o que serviria de consumo nos dias da festa da execução do homem que dera para o grupo muitas guerreiras de sua geração.

Foram viver distante dos demais grupos. Acredita-se que esse local tenha sido nas proximidades de Mura no baixo rio Negro. Depois de mais ou menos 30 anos, a família já estava grande, Tipa e Mira-bóia todos os dias pela tarde curtiam sua felicidade juntos com os filhos e filhas de sua geração.

Com isso eles viram que podiam ser uma fam√≠lia muito maior. Foi ent√£o que Tupana ordenou que viesse at√© eles o seu Mensageiro, o qual se chamou Purnaminari para lhes dizer o seguinte: “Aquilo que voc√™s est√£o pensando agrada a Tupana, por isso ele me enviou, para ensinar voc√™s a trabalhar e com isso garantir a comida de voc√™s todos os dias”. Purnaminari ent√£o passou a morar com eles por um longo per√≠odo, ensinando-os a fazer canoa, remo, ro√ßa, armadilha para pegar ca√ßa, peixe e treinar o novo grupo para guerra.

Quando o pequeno grupo j√° sabia de tudo que lhe foi ensinado, ele organizou uma grande festa com Dabucury, Adaby e Curiam√£ para preparar o povo na sua caminhada, dizendo: ” Agora que voc√™s j√° sabem de tudo o que eu lhes ensinei para viver, voltem para a terra de Tipa e tomem todas as mulheres do antigo grupo de Tipa para serem mulheres de voc√™s, a√≠ ent√£o voc√™s ser√£o grandes e respeitados e conhecidos por Bar√©-mira (povo Bar√©)”. Purnaminari, o mensageiro de Tupana, voltou v√°rias vezes para visitar e instruir seu povo.

O grupo cresceu bastante a ponto de dominar totalmente a região do baixo e médio rio Negro. Ao chegarem a Cachoeira de Tawa (São Gabriel) permaneceram ali até que Purnaminari decidisse o novo destino do seu povo.

No entanto, nessa cachoeira Kurukui e Bururi desentenderam-se e brigaram muito entre si, por isso resolveram separar-se, ficando Kurukui de um lado e Buburi de outro lado do rio. Essa separação acabou provocando desobediência às regras de Purnaminari, que ordenou ao povo não se misturar com outros grupos, porém Kurukui e Baburi acharam que para poder aumentar os seus grupos tinham que ter muitas mulheres.

Foi quando eles guerrearam com grupos menores para tomar suas mulheres e se multiplicarem. Assim Tipa e Mira-b√≥ia fizeram e conseguiram ser pais de um grande povo que, at√© √† chegada dos ‘brancos’, habitava o rio Negro desde a foz at√© √†s cachoeiras.

“Vai aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de voc√™s”. Foi com essa mensagem que Purnaminari, o grande mensageiro de Tupana, tentou prevenir todos os povos que dominavam estas terras antes de 1500. Talvez os paj√©s e os chefes imaginassem que este poderoso inimigo fosse uma epidemia ou a ira dos ventos, revolta das matas ou mesmo vingan√ßa de Curupira.

Mas em nenhum momento eles imaginaram que o inimigo seria o homem branco, vindo do meio do mar, conforme testemunharam os olhares Tupiniquim, Tupinamb√° e quem sabe outros povos nativos da costa atl√Ęntica. Muitos anos depois, essa mesma hist√≥ria se repetiria nas terras dos valentes Xavante, Kaiap√≥, Juruna e Kayabi no Centro-Oeste, entre os Tarum√£, Bar√© e Manao, na conflu√™ncia dos rios Negro e Solim√Ķes, e entre os Tukano, Baniwa, Desana e outros no extremo norte, no alto rio Negro.

Possivelmente, esses brancos foram recebidos com grande surpresa e admiração, mostrando-se por sua vez, com cara de bons amigos, oferecendo presentes, tentando se comunicar através de gestos e sinais. Mas o povo jamais poderia imaginar a tamanha barbaridade que o homem branco seria capaz.

N√£o sabiam que a partir de ent√£o estava decretado o genoc√≠dio, o etnoc√≠dio, os massacres e as opress√Ķes dirigidos √†queles que passaram a ser chamados de √≠ndios. No rio Negro, habitado ao longo de todo o seu curso pelo povo Bar√©, e em seus afluentes pelos Tukano, Desana, Arapasso, Wanano, Tuyuka, Baniwa, Warekena e outros, ocorreram as mesmas viol√™ncias. Povos e aldeias inteiras foram dizimados pelos invasores franceses, holandeses e portugueses.

Comerciantes brancos, credenciados pelos governadores das províncias, eram portadores de carta branca para praticarem qualquer ato criminoso contra os povos indígenas.

Nem mesmo o grande cacique guerreiro ‘Wayury-kawa’ (Ajuricaba) conseguiu livrar seu povo dos carrascos invasores, pois a luta era totalmente desigual: enquanto os √≠ndios lutavam com suas flechas e zarabatanas, os brancos disparavam poderosos canh√Ķes contra homens, mulheres e crian√ßas que tentavam impedi-los de entrar em suas terras. Mas mesmo dominado, preso e ferido, Ajuricaba preferiu a morte, jogando-se acorrentado ao rio.

√ćndio Waikaland por PedroJr / Divulga√ß√£o
√ćndio Waikaland por PedroJr / Divulga√ß√£o

Coment√°rios