Lenda da cobra Honorato (Norato) e cobra Maria Caninana

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A Cobra grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa cobra, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmesurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios. Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés.

Conta-se que uma índia engravidou da Boiúna e teve duas crianças: uma menina que se chamou de Maria e um menino chamado de Honorato. Para que ninguém soubesse da gravidez, a mãe tentou matar os recém-nascidos jogando-os no rio. Mas eles não morreram e nas águas foram se criando como cobras.

Cobra Honorato
Cobra Honorato

Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Honorato e Maria Caninana. Cobra Honorato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitava a tapuia velha, em seu tejupar* . Nadava para a margem esperando a noite.

Quando apareciam as estrelas e a aracuã* deixava de cantar, A Cobra Maria saía d’água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia. Vinha coleando, subindo, até a barranco. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se uma moça bonita e vistosa. Assim como seu irmão Honorato saiam como pessoas normais.

Cobra Honorato salvou muita gente de morrer afogada. Desvirou embarcações e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a Piraíba do Rio Negro abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.

Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar.

Cobra Maria Caninana autoria : Frank Garcia
Cobra Maria Caninana
autoria : Frank Garcia

Numa cidadezinha do amazonas, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Santa Ana, na igreja que é da mãe de Nossa Senhora. Sua cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou, mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz.

Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios e no silêncio dos paranás do arquipélago Mariuá.

Quando havia putirão de farinha, dabucuri de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos. Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.

Lenda da cobra Honorato
Lenda da cobra Honorato

Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do Rio, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma machadada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areão.

A Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida. O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.

Lenda da cobra Honorato (Norato)
Lenda da cobra Honorato (Norato)

Muita gente, com pena de Honorato, foi com aço virgem e fresquinho leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta assombrava. A velha tapuia, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Norato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Negro, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.

Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Amazonas, até uma cidade vizinha. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber e conversar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse.

Lenda da Cobra Grande
Lenda da Cobra Grande

O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta, boca aberta, sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com vontade, no cocuruto da cabeça.

O sangue marejou, a cobra sacudiu-se e parou. A cobra Norato deu um suspiro de descanso. Honorato veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem.

E Honorato só morreu,anos e anos depois. Não há nesse rio e terras do Amazonas quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas. Canoeiros, batendo a jacumã, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas: “Ali passava, todo dia, a Cobra Norato…”.

Lenda da cobra Honorato (Norato) e Cobra Maria Caninana
Lenda da cobra Honorato (Norato) e Cobra Maria Caninana

Vocabulário

*Aracuã : é uma ave que faz muito barulho de manhã na beiro do rio.

*A tapuia: a índia.

*Tejupar: cabana.

Enviado por : Barcelos na Net

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