Não conheça Manaus ou Conheça por sua conta e risco

10842

[notification type=”notification_info” ]This article is also available in English[/notification]

Dizem que conselho se fosse bom se vendia, mas ao longo da vida vamos juntando bagagens que queremos compartilhar. Em função de muito que se tem falado sobre a Copa do Mundo e sobre turistas resolvi dar minha opinião. De quem morou em Manaus por 11 anos. Logo, se eu puder lhe dar um conselho, diria: não vá ao Amazonas. Não conheça Manaus. Tem muita coisa errada lá.

Encontro das √Āguas/Foto: Revista Viaje Pelo Amazonas
Encontro das √Āguas/Foto: Revista Viaje Pelo Amazonas

A começar pelo povo. São pessoas que foram (e são) hostilizadas, sofreram preconceitos por terem nascido naquela região e ainda nos tratam bem. Estranhamente, o amazonense lhe faz sentir em casa. E olha que a casa deles é quente, mas o povo consegue ser mais caloroso. Amazonense é acolhedor sim. Não importa se acabaram de se conhecer, são tão esquisitos que não demora muito a oferecerem um churrasco (de peixe) com cerveja a você. E quando você sai da casa deles fica com a impressão de os conhecer há muito tempo.

Por falar em comida, n√£o coma nada em Manaus. Principalmente se for peixe. Corra de pirarucu, fuja de tambaqui, vire o rosto para matrinch√£, n√£o prove jaraqui ou bod√≥. Voc√™ poder√° estar fadado a nunca mais comer peixes da mesma forma. Um tambaqui assado simples j√° √© um manjar √† parte, quando misturado com as iguarias da terra, derrubam o mais forte caboclo imagine com os imigrantes de est√īmago estragado. As frutas tamb√©m s√£o atra√ß√Ķes especiais. Se voc√™ brincava de atirar mamona nos outros quando crian√ßa, ficar√° surpreso em conhecer o rambut√£, uma esp√©cie de mamona vermelha que tem um gosto √ļnico. E sim, chocolate melhora a vida de todos, e um creme de cupua√ßu pode melhorar um chocolate. Poderia falar por p√°ginas aqui da gastronomia e dos temperos, mas ainda h√° mais coisas para se precaver.

Por prevenção, se você mora numa outra capital, cuidado com Manaus. Ela costuma não ser violenta. Sim, é possível sair à noite e voltar para casa sem ser assaltado e o pior, sem necessitar ser neurótico. Há violência é lógico, mas localizada e pontual, com um pouco de atenção você também pode passar 11 anos ou bem mais incólume. E olha que saí muitas vezes à noite.

Ribeirinhos
Ribeirinhos

No quesito noite, Manaus √© realmente uma terra de muitas tribos. L√° voc√™ encontrar√° rock (do leve ao death metal), blues, jazz, samba de raiz, m√ļsica cl√°ssica, forr√≥, brega, sertanejo universit√°rio. A diversidade √© tanta que √© poss√≠vel sair todos os dias da semana. Todos. E pensar que onde eu morava no sul poucas vezes vi concertos qui√ß√° √≥peras. Em Manaus, ficava muito aborrecido quando perdia um festival amazonas de √≥pera. Ali√°s, festival cultural n√£o falta, porque al√©m das musicas h√° festivais de dan√ßa e de teatro. E mesmo n√£o sendo t√£o valorizadas, como em tantos outros cantos deste pa√≠s, as trupes fazem muitas apresenta√ß√Ķes. Foi no meio da selva que minha vida cultural deu uma guinada.

Sobre selva, fica a dica para os forasteiros: Manaus tem quase dois milh√Ķes de habitantes. A cidade √© imensa. N√£o se veem muitos animais na rua, al√©m dos que s√£o vistos em outras cidades. Pr√≥ximo a algumas zonas de prote√ß√£o ou parques sim, mas nada muito al√©m de uma pregui√ßa ou p√°ssaros (quem estuda na Federal do Amazonas costuma se deparar com pregui√ßas atravessando a rua, isso porque a UFAM fica numa das maiores √°reas de floresta preservada dentro de uma cidade). Para ver floresta e vida nativa √© necess√°rio sair um pouco da cidade e a√≠ eu lhe digo: vale cada centavo. As cidades e passeios pr√≥ximos s√£o fora do comum. Come√ßa pela beleza das paisagens e suntuosidade dos rios. Cachoeiras fant√°sticas, como na cidade de Presidente Figueiredo, e animais lindos, como os botos de Novo Air√£o. H√° muita beleza natural nessas terras.

J√° as coisas do homem da terra n√£o merecem muita aten√ß√£o. A cultura rica em lendas e mitos, rica n√£o meu amigo MUITO rica, carrega um pouco do universo ind√≠gena com pitadas dos imigrantes. Para tudo h√° uma explica√ß√£o m√≠tica. E se s√≥ a beleza das hist√≥rias j√° encantam, quando o caboclo pega a musicar elas, transforma em toadas que merecem o respeito de serem ouvidas de olhos fechados. Como diria um amigo meu citando uma m√ļsica de boi bumb√°, h√° muito mais no ‚Äúverde que desbota na dist√Ęncia que existe entre a mata e o homem‚ÄĚ que imaginamos.

Por falar em Bumbás, há vida além de Garantido e Caprichoso. Os bois de rua de Manaus são muito populares na cidade, além de outras danças típicas como as cirandas da cidade vizinha Manacapuru. Mas a movimentação dada pelos bois de Parintins transcende o gostar de folclore e se rivaliza dos enfrentamentos não só nas arenas até nas rodas de bares e encontros amigos, onde conversas acaloradas sempre recordam momentos e festivais. Se quiser ofender um grupo de amazonenses, coloque toadas de um só boi. Sempre há um contrário para todos os contrários.

Como disse antes, n√£o v√° a Manaus. A cidade carece de infraestrutura, tem problemas na pol√≠tica e educa√ß√£o, como toda cidade brasileira hoje apresenta. Mas foi l√° que encontrei Amazonas e bravos que me doaram, sem orgulho e sem falsa nobreza, lendas para sonhar, vida e riqueza nas lutas que travei. N√£o √© apenas um hino, mas a imagem sincera de um povo que n√£o tem pudores em ceder um pouco de si. Se contrariar meu conselho e for conferir de perto, insisto para que n√£o v√° com a cabe√ßa aberta. Cerque-se de preconceitos e compara√ß√Ķes com outros lugares em tudo o que vir e sentir l√°, porque do contr√°rio, com cora√ß√£o aberto amigo eu lhe garanto: voc√™ poder√° se apaixonar assim como eu me apaixonei.

Não conheça Manaus ou Conheça por sua conta e risco
Não conheça Manaus ou Conheça por sua conta e risco

 

Fonte : Jimi Aislan Estr√°zulasVida e Entravero

Coment√°rios