O lado tenebroso da Belle √Čpoque Bar√©

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Artista : Henri de Toulouse-Lautrec (1864‚Äď1901) T√≠tulo: At the Moulin Rouge, The Dance Data : 1890
Artista : Henri de Toulouse-Lautrec (1864‚Äď1901)
Título: At the Moulin Rouge, The Dance
Data : 1890

A Belle √Čpoque (bela √©poca, em portugu√™s) foi um per√≠odo de cultura cosmopolita na hist√≥ria da Europa que come√ßou no final do s√©culo XIX (1871) e durou at√© a eclos√£o da Primeira Guerra Mundial em 1914. A express√£o tamb√©m designa o clima intelectual e art√≠stico do per√≠odo em quest√£o. Foi uma √©poca marcada por profundas transforma√ß√Ķes culturais que se traduziram em novos modos de pensar e viver o quotidiano.

Foi considerada uma era de ouro da beleza, inova√ß√£o e paz entre os pa√≠ses europeus. Novas inven√ß√Ķes tornavam a vida mais f√°cil em todos os n√≠veis sociais, e a cena cultural estava em efervesc√™ncia: cabar√©s, o cancan, e o cinema haviam nascido, e a arte tomava novas formas com o Impressionismo e a Art Nouveau. A arte e a arquitetura inspiradas no estilo dessa era, em outras na√ß√Ķes, s√£o chamadas algumas vezes de estilo “Belle √Čpoque”. Al√©m disso “Belle Ep√≥que” foi representada por uma cultura urbana de divertimento incentivada pelo desenvolvimento dos meios de comunica√ß√£o e transporte , que aproximou ainda mais as principais cidades do planeta.

Esse movimento art√≠stico cultural chegou √† Amaz√īnia durante o ciclo da borracha, quando uma pequena parcela do enorme lucro do com√©rcio internacional do l√°tex era usada pela elite dirigente local para construir uma insossa Paris Tropical. O principal marco material dessa √©poca √© o Teatro Amazonas, um projeto que tentava imitar a vida cultural parisiense e cuja pedra fundamental foi lan√ßada no dia 14 de julho de 1884, exatamente a mesma data em que se comemorava, na Fran√ßa, o 95¬ļ anivers√°rio da Queda da Bastilha. Essa rid√≠cula macaquea√ß√£o chegou ao ponto de inserir as datas francesas na hist√≥ria amazonense para fingir que por aqui, ‚ÄúLes jours de gloire est arriv√©‚ÄĚ, como diz a Marseillaise, o bel√≠ssimo hino franc√™s.

Teatro Amazonas, um belíssimo teatro, de alto nível internacional, construído no meio do nada.
Teatro Amazonas, um belíssimo teatro, de alto nível internacional, construído no meio do nada.

Assim como o Teatro, as obras p√ļblicas eram projetadas para beneficiar os beneficiados, um grupo que misturava gente de bom n√≠vel cultural com um enorme contingente de ignorantes endinheirados que fingia gostar de √≥pera e teatro.

IMITAÇÃO PERVERSA

Esse pl√°gio s√≥cio-cultural, al√©m de ser absolutamente incompat√≠vel com a identidade amaz√īnica, ainda afundava o Estado em pesadas d√≠vidas contra√≠das no exterior para erigir um progresso fict√≠cio que favorecia a corrup√ß√£o. Os que denunciavam essa degrada√ß√£o moral, eram perseguidos e, entre esses her√≥is da resist√™ncia, est√° entronizada a figura de Heliodoro Balbi, que teve seu mandato de deputado cassado por proferir, na C√Ęmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, a contundente e definitiva frase: ‚ÄúO Amazonas √© a Cal√°bria da P√°tria‚ÄĚ. Morreu refugiado no Acre, em 26/11/1919.

Na escalada para beneficiar os beneficiados tamb√©m se construiu o Pal√°cio da Justi√ßa, se importou um pr√©dio para sediar a Alf√Ęndega e se contratou o arquiteto Gustavo Eiffel (o mesmo da famosa Torre), para elaborar o projeto do Mercado P√ļblico.

Essa frivolidade insana era incompat√≠vel com a Manaus de ent√£o, onde a quase totalidade dos habitantes n√£o tinha dinheiro para freq√ľentar o Teatro, n√£o tinha acesso √† justi√ßa, n√£o usava bens importados pela Alf√Ęndega e n√£o tinha poder aquisitivo para comprar seus alimentos no sofisticado Mercado. Um dos marcos da futilidade foi a importa√ß√£o de pedras (para pavimentar ruas, calcadas e pra√ßas) e √°rvores (frut√≠feras e de arboriza√ß√£o).

O Mercado Municipal Adolpho Lisboa é um dos mais importantes centros de comercialização de produtos regionais. Inspirado no Mercado de Les Halles de Paris, foi o segundo mercado construído no Brasil.
O Mercado Municipal Adolpho Lisboa é um dos mais importantes centros de comercialização de produtos regionais.
Inspirado no Mercado de Les Halles de Paris, foi o segundo mercado construído no Brasil.

A CENA E OS BASTIDORES

Na cena principal, os ricos e endinheirados, s√≥ usavam artigos importados e se divertiam em clubes de luxo ou assistindo pe√ßas de teatro e √≥pera. Com algum sadio devaneio √© poss√≠vel imaginar abastados seringalistas, ‚Äúcoron√©is de barranco‚ÄĚ e opulentos comerciantes, acompanhados das esposas semi ou totalmente analfabetas, usando car√≠ssimas roupas europ√©ias, chegando ao Teatro, em carruagens douradas, para assistir um espet√°culo oferecido para uma plat√©ia boquiaberta e cheia de admira√ß√£o subserviente por artistas que falavam uma l√≠ngua que ela n√£o entendia.

Nos bastidores sem charme a vida era marcada por uma perversa exclus√£o social, com os pobres morando na periferia aonde nunca chegou ilumina√ß√£o p√ļblica, √°gua encanada, trilho de bonde, logradouros p√ļblicos bem cuidados, ruas arborizadas e cal√ßadas, etc.

A cena e os bastidores são marcados por uma perversa distribuição de miséria e uma opulenta concentração de riqueza que chegou ao ponto de importar até mesmo as prostitutas (francesinhas, mademoiselles, polacas, etc.) porque as putas caboclas, índias e nordestinas (marafonas, mariposas, patuscas, mulheres de vida fácil) não eram dignas de saciar a sodomia dos ricaços.

A popula√ß√£o bar√© passa a se vestir como os europeus. Ignorando suas ra√≠zes ind√≠genas e o calor amaz√īnico
A popula√ß√£o bar√© passa a se vestir como os europeus. Ignorando suas ra√≠zes ind√≠genas e o calor amaz√īnico

A edi√ß√£o de 02/02/1906 do centen√°rio Jornal do Commercio de Manaus (www.jcam.com.br) informava que o sal√°rio do trabalhador em Manaus era de 6 mil reis por dia, insuficiente para atender as necessidades da fam√≠lia. Em outro trecho da reportagem, diz o jornal: ‚Äú√Č um horror! A cidade est√° cheia de indigentes que vivem ao sol e √† chuva, pelos jardins e por todos os cantos da cidade, muitos atacados de febre e berib√©ri‚ÄĚ.

O ciclo da borracha teve seu fim exatamente como se encerram todos os sistemas econ√īmicos alicer√ßados no modelo ‚Äúbarata voa‚ÄĚ, isto √©, ao menor sinal de perigo todo mundo se manda.

Ficaram por aqui os noveaux riches que viraram noveaux pauvre e passaram a clamar pela internacionaliza√ß√£o da Amaz√īnia sem se importar com os exclu√≠dos da periferia da cidade, do hinterland e, principalmente, dos seringais habitados por nordestinos que Euclides da Cunha tipificou como ‚Äúo homem que trabalhava para escravizar-se.

Embora pareça cena do filme Titanic, essa cena acontecia com frequencia no Porto de Manaus.
Embora pareça cena do filme Titanic, essa cena acontecia com frequencia no Porto de Manaus.

LIVROS ESSENCIAIS

Quem quiser fazer uma proveitosa caminhada por esse tema da história amazonense deve ler, pelo menos, os livros de:

  • Agnello Bittencourt (Corographya do Estado do Amazonas);
  • Ana Maria Daou (A belle √©poque amaz√īnica);
  • Antonio Jos√© Loureiro (S√≠ntese da hist√≥ria do Amazonas);
  • Edn√©a Marcarenhas Dias (A ilus√£o do fausto. Manaus 1890-1929);
  • Etelvina Garcia (Amazonas, not√≠cias da hist√≥ria);
  • Genesino Braga (Fast√≠gio e sensibilidade do Amazonas de ontem);
  • Jos√© Fernando Collyer (Cr√īnicas da hist√≥ria do Amazonas);
  • Marcio Souza (Breve hist√≥ria do Amazonas);
  • Mario Ypiranga Monteiro (Teatro Amazonas);
  • Paulo Marreiro Santos Junior (Pobreza e prostitui√ß√£o na belle √©poque manauara: 1890-1917);
  • Otoni Mesquita ( Manaus- Hist√≥ria e Arquitetura 1852-1910);

Texto por: Ozorio Fonseca

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