Os Tempos da Palmatória

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LP Escrevendo o Futuro – Memórias Literárias – Texto número: 335.609

Título: Os tempos da palmatória

Os tempos da palmatória
Os tempos da palmatória

 

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OS TEMPOS DA PALMATÓRIA

Às vezes me pego pensando como enfrentei com dificuldade certos momento de minha vida, não tínhamos muitas condições financeiras. Época em que a comunidade brotava por entre cacauais e seringais, as casas eram cobertas de palhas e distantes uma das outras, principalmente a taberna.

Eu e meus irmãos andávamos um tempão a pé para comprar o rancho, íamos juntos, tal qual fileira de patinhos! E para animar, chapávamos cacau pelo caminho. Outras vezes brincávamos de manja pega, pra ver se chegávamos mais rápido, pois a taberna ficava lá onde o Judas perdeu as botas, de tão longe!

Lembro-me que minha mãe nos mandava comprar as coisas e dizia: vá num pé e volte no outro. Eu não entendia o significado dessa ordem e ficava imitando o Saci – Pererê. Então minha mãe ralhava e como num ritual, cuspia no chão, se o cuspe secasse antes da gente chegar, apanhávamos com cipó de cuieira assado.

Era nego correndo o mais depressa possível com medo de levar uma surra!

Meu nome é João Evangelista Cunha Nogueira, mais conhecido como Nequito.

Nasci em 1951, em Terra Nova, Careiro da Várzea, Amazonas. Tenho 63 anos e esta é minha história.

Cresci em uma comunidade chamada Canteirão, em Terra Nova. Não tive infância, porque comecei a trabalhar muito cedo. Ajudava meu pai nos cultivos de mandioca. Eram tempos trabalhosos, acordávamos, tomávamos café com beiju e íamos ao roçado limpar os pés de mandioca.
Logo cedo aprendi a manejar bem um terçado. Aos quinze anos minhas mãos estavam grossas e calejadas! E me orgulhava, quando as pessoas falavam que eu tinha mãos de macho!
Estudos? Quase nada! O pouco que tive foi numa escolinha de madeira que ficava na casa da professora Edwirges. Naquele tempo, eu e meus irmãos, andávamos cerca de duas horas para chegar à escola. Transportes? Nem imaginação!
O ensino também era rígido, se não aprendesse a tarefa, pegava bolo nas mãos com a famosa palmatória, que a professora fazia questão de deixar em cima da mesa como uma ameaça. Ainda me lembro que tremia de medo quando ela dizia: escreveu, não leu pau comeu!

Umas das aulas que mais tínhamos medo era da Sabatina da tabuada: a professora colocava os alunos ao seu redor e com a palmatória na mão, saía perguntando, tínhamos que responder rapidamente e aquele que errava pegava bolo na mão pelo colega que acertava. O bolo tinha que ser forte! Era um castigo e quem tivesse pena do outro, pegava bolo também. Naquela época, ou o caboclo aprendia ou ficava burro de uma vez!

Naquele tempo não tínhamos merenda e chegávamos em casa cansados e mortos de fome! Tive que abandonar a escola na 2ª série, depois de repetir alguns anos.

Hoje os tempos são outros: luz elétrica, água encanada. Naquele tempo usávamos lamparina para alumiar e carregávamos água do rio em baldes de cuieiras, e colocávamos no jirau para lavar louça e no pote para beber.

Hoje em dia os alunos têm tudo na escola para aprender: livros, transportes, merenda. Só não aprende se não quiser! Até a malvada da palmatória não existe mais! Pena que mesmo assim ainda não dão valor.

Ah! Uma das coisas que tenho mais saudades daqueles tempos era das peripécias que fazia na juventude. Os antigos contavam histórias assustadoras, de Matins e Misuras que assombravam as pessoas nos cacauais e seringais ou nos terreiros.

Na minha juventude tive momentos bons, me diverti bastante! Ia para as festas e festejos do padroeiro e namorava, dançava, passeava e brincava. Casei-me e tive cinco filhos, os quais me deram seis netos que fez muito feliz!

Atualmente, sento à sombra da mangueira que plantei quando criança e olho ao redor observando meus netos, então percebo como o tempo passou. Muita coisa mudou, outras já não existem mais! Lembro-me dos acontecimentos marcantes, enraizados neste lugar, tal qual esta árvore que tive a honra de plantar. São nítidos os tempos na memória, os tempos difíceis, os tempos da palmatória, bem como os bons tempos que foram felizes e compensatórios!

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