Patrimônios Históricos de Manaus sob novo olhar: Vistas abandonadas, óticas reconstruídas

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O artigo abaixo “Patrimônios Históricos de Manaus sob novo olhar: Vistas abandonadas, óticas reconstruídas” foi publicado na revista Idéias Editadas , edição nº 10 – Ano 3  out/nov/dez de 2013 – Manaus/AM.

Na Cena – por Laynna Feitoza

Verdadeiros abrigos da história e testemunhas do desenvolvimento de Manaus, os patrimônios históricos da cidade têm sido cada vez mais o cerne de ações e pesquisas da população. No ramo acadêmico, despontam dissertações e teses que sobressaem-se com o intuito de dominar novos expoentes e propor diversas reflexões sobre o destino das edificações antigas da cidade, cuja a grande maioria encontra-se abandonada pelas vistas do poder público.

Hotel Cassina,Manaus
Hotel Cassina,Manaus

Dois estudiosos – manauaras – do ramo escolheram revisitar o olhar empregado aos prédios históricos da capital amazonense. O primeiro deles é o designer e empreendedor Marcus Vinícius Marques Pessoa. Talvez pelo nome e sobrenome seja possível recordar do administrador da Fan Page local “No Amazonas é Assim”, que aborda aspectos da regionalidade contemporânea da menina dos olhos da chamada ‘Paris dos Tópicos’.
Tamanho afinco com os aspectos da personalidade da terra por meio da criativa Fan Page motivam Marcus, a além de manter a página que mostra fatos e curiosidades sobre Manaus, a fazer uma boa leitura de estabelecer uma nova ‘comunicação ‘ entre a linha que se impõe em Manaus e a Belle Époque. Intitulada ‘Manaus durante a Belle époque: uma narração histórica através da comunicação do território’, a dissertação de Marcus é uma proposta de comunicação do território capaz de envolver e narrar um percurso de Manaus durante a Belle Époque com a ajuda da realidade ampliada. Segundo ele, a proposta atua de modo a trazer interação com o território e acrescentar valor cultural para a cidade de Manaus.

“O projeto é uma proposta de comunicação de território capaz de envolver e narrar um percurso de Manaus durante a Belle Époque com a ajuda da realidade aumentada, de modo a trazer a interação com o território e acrescentar valor cultural para a cidade de Manaus. Ele nasce da ideia de criar um guia turístico não convencional para Manaus, que possa trazer do território e revelar ao “turista – não turista’ os aspectos da cidade quemuitas vezes não são levados em conta, tanto por aqueles que viajam quanto pelos guias geralmente comprados. Com este guia pretende-se mostrar diferentes partes da cidade em termos de “Olhar da época”, pontua Pessoa.

Para a dissertação – que ainda está em curso na Politecnico di Milano, universidade italiana estatal de cunho científico-tecnólogico voltada à formação de engenheiros, arquitetos e designers – foram individualizados em três locais históricos que durante a Belle Époque serviram de palco para encontro de pessoas: o Largo de São Sebastião, Praça da Matriz e a Praça XV. “Essas praças durante a Belle Époque, foram protagonistas de uma nova maneira de viver em Manaus”, salienta o mestrando. Ainda conforme Marcus, a dissertação deve ser concluída até,no máximo, em abril de 2014.

Marcus justifica a escolha do tema para a dissertação de mestrado por acreditar – assim como muitos – que Manaus possui uma vasta história, que está dia a dia sendo sacrificada pela memória da população. De acordo com Pessoa, é fundamental compreender que agir em termos de comunicação do território não é apenas uma oportunidade de crescimento no turismo , mas é realmente crucial para a sobrevivência da história da cidade. “Riscamos da memória aos poucos e, daqui a pouco, não sabemos mais nada sobre quem somos. Em tempos em que as cidades são alteradas sempre com mais frequência, as vezes elas perdem o vínculo com o passado, especialmente se a cidade não tem uma cultura de preservação do patrimônio histórico. Além de ensinar aos cidadãos o que lá estava antes, nós devemos conscientizá-los que as cidades podem evluir sem perder a sua origem”, reflete.

O foco principal do trabalho de Marcus são os patrimônios pouco visíveis pela sociedade. “São patrimônios que estão lá mas não possuem mais a atenção e o glamour que continua possuindo o Teatro Amazonas, por exemplo. Locais tão interessantes e ricos de história quanto o Teatro Amazonas. Portanto é necessário criarmos uma atenção especial a estes locais. Nesse trabalho, nosso objetivo é comunicar a vantagem competitiva da cidade de Manaus em termos qualidade histórica, arquitetônica, ambiental e cultural”, explica Pessoa.

Sob amparo de obras extraterritoriais como ‘Design For Local Development. Building a design approach for the territorial capital resources based on a situated perpective. Cumulus Working Papers’ de Maffei Villari (2006),’Manaus da Belle Époque: um cotidiano em tensão: A Utopia da Modernidade na Cidade Disciplinar’, De Ana Maria Daou(2000),’Breve História da Amazônia’, de Márcio Souza (2001) e Design e Indentitá Urbana – Riflessione ed esperienze per Milano e Napoli’, de Marina Parente (2012), Marcus – além de pesquisar sobre o Largo São Sebastião, Praça da Matriz e a Praça XV – também visitou várias cidades européias para compreender o que tem sido feito por lá.

Veneza, Florença, Roma, Bologna, Napoli, Lugano, Berlim, Barcelona, Paris, Lisboa e Amsterdam estão na lista de metrópoles que o design ancorou os seus questionamentos. “De todas as cidades pude aprender algo, e principalmente, aprendi a respeitá-las como cidade, além de ficar encantado como os turistas são vistos. São cidades acostumadas com o turismo, cidades grandes que culturalmente recebem muitas pessoas todos os anos”, recorda.

A leitura dedicada aos patrimônios históricos, porém não é nada convencional. O designer revela que a ótica do trabalho preconiza histórias e mistérios fora do padrão em relação aos lugares analisados. Segundo ele, a escolha pela abordagem do curioso se ampara na fácil memorização por parte das pessoas, e o que faz com que tais enredos se perpetuem. ” quando tentamos inserir uma informação em alguém que não está preparado para recebe-la , a informação acaba nela mesma”, disse.

Ele destaca, porem, que aplicar uma comunicação igual para todos os viajantes às vezes pode significar o fracasso de um guia, já que os viajantes tem interesses diferentes, e, portanto, razões diferentes. “Aqui é o momento que surge a comunicação de território, para atender os turistas de acordo com os seus desejos mais íntimos. As pessoas que se satisfazem das experiência obtidas, compartilham suas experiências e acabam influenciando outras pessoas que ao seu redor influenciarão outras. O mesmo ocorre com as experiências negativas, mas a velocidade de disseminação destas é ainda mais rápida”, evidencia.

Com esse projeto, Marcus enxerga a possibilidade de aplicar estratégias de comunicação aos locais de experiências turísticas, como uma forma de desenvolvimento turístico. “Podemos conquistar uma vantagem competitiva da cidade de Manaus em termos de serviços, de qualidades históricas, arquitetônicas, ambientais e culturais”, propõe. E finaliza: “Iniciativas de comunicação de território são capazes de envolver e narrar um percurso, de modo a trazer interação com o território e acrescentar valor cultural para a cidade”.

O segundo nome a revisitar o sentido dos patrimônios históricos locais em suas pesquisas é o da professora e pesquisadora Maria Evany do Nascimento, que é graduada em licenciatura em Educação Artística (UFAM), especialista em história e crítica da arte (UFAM), mestre em Sociedade e Cultura da Amazônia (UFAM), doutoranda em Design pela PUC-Rio. Antes de dissecar os títulos e motivos da sua tese de doutorado, ela explica a diferença entre os termos revitalização e restauração.

De acordo com ela, restauração é um processo de interferência em um bem (arquitetônico, escultórico, pictórico, por exemplo) que precisa ser feito por especialistas, pois prevê o uso de técnicas que possam recuperar os aspectos simbólicos, artísticos e históricos do bem.

“Por exemplo: quando se fala em restauração do Paço Municipal, fala-se da limpeza, da recuperação da pintura original, dos materiais que constituíam originalmente. É um processo bem demorado pois precisa de todo o cuidado para não danificar nem alterar a obra. Restaura é deixa-la o mais próximo possível do seu estado original, já que muitas vezes alguns elementos não podem ser recuperados. Então restauração tem aí o sentido da recuperação, de preservação de um bem para deixa-lo com era quando foi inaugurado”, elucida Evany.

Já revitalização, conforme a professora, conforme a professora, é um termo que significa ‘reviver, revigorar, trazer vida nova’ a um bem. “Nos espaços públicos de Manaus é comum observar as placas de identificação das obras com ‘Revitalização da Praça tal’. Nesse caso tem um sentido de buscar um nova vida a uma praça que se achava abandonada, escura, suja, feia. Revitalização então é o processo de recuperação da praça, não necessariamente para deixá-la como era, mas para torná-la mais agradável aos usuários, e isso prevê a colocação de mobiliário urbano e de novos usos ao espaço, Ou seja, a revitalização inclui a colocação de novos elementos, ao contrário da restauração que não permite alteração na obra”, complementou.

Voltando para as razões da sua tese, Nascimento escolheu abordar o tema ‘Patrimônio e Design Urbano”, cujo título (provisório) é ‘Do discurso à cidade: políticas de patrimônio e construção do espaço público no Centro Histórico de Manaus’. Em linhas gerais, a pesquisadora conta que está fazendo uma análise dos discursos das políticas públicas (leis, decretos, projetos) que tratam do patrimônio urbano e tem direto no Centro Histórico. ” Dessa análise pretendo refletir sobre como e até que ponto as leis impactam na construção do espaço público. Tomando com recorte temporal o período de 1997 a 2012. O doutorado iniciou em 2010 e já está na “reta final”, caminhando para a defesa no primeiro semestre de 2014. A defesa acontecerá na PUC-Rio, com data ainda a ser definida”, acentua.

Segundo Evany, a pesquisa é basicamente qualitativa, de análise documental. Para isso ela afirma que buscou as leis específicas sobre o patrimônio municipais, estaduais e federais. Entre elas a lei Orgânica do Município de Manaus – LOMAN; a Lei nº 1529, de 26 de Maio de 1982, que “Dispõe sobre a proteção do patrimônio Histórico e Artísticos do Estado do Amazonas e Cria o Conselho Estadual de Defesa Históricos e Artísticos do Amazonas”; o Dossiê de Tombamento do Centro Histórico de Manaus, promovido pelo iphan; os projetos de revitalização de espaços públicos, como o projeto Belle Époque e o programa Cartão Postal. “Além destes documentos, também foram levantados os discursos dos gestores através da mídia e de material promocional institucional (como folders, livretos sites, etc)”, ressalta.

Nascimento pesquisa sobre o patrimônio de Manaus desde a graduação, onde gerou o projeto de iniciação científica denominado ‘inventário e catalogação de obras de Arte em logradouros públicos do Centro Histórico de Manaus’. O trabalho, desenvolvido no período de 1997 a 1998, foi publicado em 2013 no livro intitulado ‘Monumentos Públicos do Centro Históricos de Manaus’. “A partir daí, prossegui pesquisando e entendendo a importância das esculturas, da arquitetura, dos espaços públicos pra a memória e a história da cidade. E por ser um tema muito rico, ainda pode render pesquisa de doutorado, que está sendo orientada pelo arquiteto e Dr. Otávio Leonídio, da PUC-Rio”, informa.

A bibliografia utilizada por Maria é extensa, mas as obras de referência teórica estão agrupadas em quatro temas: ‘Análise do discurso’, com o historiador das ideias Quetim Skinner como principal referência; ‘Patrimônio’, com José Reginaldo Gonçalves e Françoise Choay; ‘Design Urbano’, com a tese do arquiteto espanhol Pedro Brandão; e o tema ‘Manaus’, com Otoni Mesquita, José Ademir de Oliveira, Aldísio Filgueiras, entre outros. Para compor o trabalho, ela analisa os documentos do Projeto Belle Époque, Programa Cartão Postal e o dossiê de tombamento do Centro Histórico de Manaus pelo iphan. “Aliado aos documentos também visitei (a título de percepção do lugar e contraposição do discurso que se diz dele), visitei nesse período do doutorado, os centros históricos de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires”, destaca Evany.
Presente na observação da pesquisadora, está a percepção – não tão positiva – sobre os espaços público de Manaus que passaram por revitalização. Ela conta que umas das ideias que compõem tal percepção é que os patrimônios estão mais voltados à visualidade, no sentidos de serem dotados de espaço para olhar, para a fotografia, para o passar rápido e não para estar. ” Em uma cidade como Manaus, precisamos de sombra durante o dia. Nossas praças estão deficientes a arborização. Espaços como Praça do Congresso e Parque Jefferson Péres, só são usados à noite, porque durante o dia não há como aproveitar o espaço devido o forte calor, são como campos abertos ao sol. Enquanto isso, é possível também observar que há outros espaços na cidade dotados de árvores e por onde passa canais de água, que seguem poluídos e sem projetos que possam dotá-los de mobiliário (bancos , fontes) para que sejam usados pela população”, reflete Nascimento.

Sobre as conclusão finais, a pesquisadora adianta está escrevendo a tese, e que a análise dos dados é que o período que inicia em 1997 é rico no que diz respeito às políticas de patrimônios em Manaus. Pois estamos diante de uma mudança de olhar para a cidade, que vai ganhar destaque com os debates sobre os tombamento da cidade como cidade histórica pelo iphan, com o acontecimento da Copa do Mundo de sede, com os investimentos do governo federal também com o PAC – Cidades Históricas”, destaca.

Porém, ela avisa que muita coisa está acontecendo na política cultural da cidade. E redirecionada, assim como Marcus, a uma profunda reflexão sobre os patrimônios históricos da cidade. “Há investimentos e projetos federais, estaduais e municipais. A sociedade está acompanhado de perto e cobrando determinadas posturas dos gestores. no meio disso, a cidade que foi modelada no período da borracha (o centro histórico) aparece como destaque nos discursos e passa destes ao traçado dos espaços públicas que estão, aos poucos, retomando a imagem que se tinha da Manaus do fim do século XIX e início do século XX. O que precisamos fazer é discutir até que ponto essa retomada está caminhando com as necessidades da cidade que temos hoje”, concluiu Nascimento.

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