Porto de Manaus

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Com o desenvolvimento econ√īmico produzido pela borracha, tornou-se necess√°ria a amplia√ß√£o das instala√ß√Ķes portu√°rias existentes, que se resumiam no pr√©dio da Recebedoria (atual pr√©dio de Opera√ß√£o), e o trapiche ‚Äú15 de Novembro‚ÄĚ, constru√≠do em 1890.

Em 13 de outubro de 1869, D. Pedro II sancionou a Lei de n¬ļ. 1.746, que autorizava os presidentes das prov√≠ncias a controlar a constru√ß√£o, nos diferentes portos do Imp√©rio de docas e armaz√©ns para carga e descarga de mercadorias. Trinta anos depois, em 5 de setembro de 1899. O Governo Federal publicou edital de concorr√™ncia para execu√ß√£o de obras de melhoramento do Porto de Manaus.

O prazo para a entrega das propostas foi prorrogado at√© abril de 1900. A vencedora da concorr√™ncia foi a firma paulista B. Rymkiewcz & C¬ļ, que assinou o contrato em 25 de agosto de 1900. O contrato estabeleceu o prazo de 60 anos, a contar da data de inaugura√ß√£o das obras para a explora√ß√£o do Porto. A firma tinha como obriga√ß√Ķes:
Regularizar a margem do rio, construir um cais, rampa de acesso, obras permanentes e flutuantes para a atracação de qualquer navio em qualquer época do ano, e serviços de carga, descarga e armazenagem com relação a pequena e grande navegação.

Desde o per√≠odo em que se conheceu o resultado da concorr√™ncia at√© 1902, a firma B. Rymkiewcz & C¬ļ, quase nada cumpriu das cl√°usulas do contrato firmado com o Governo Federal. Com a denomina√ß√£o de ‚ÄúEmpresa de Melhoramentos do Porto‚ÄĚ. a mesma firma assinou o contrato com o Governo Estadual para construir e explorar, sem preju√≠zo da execu√ß√£o do contrato com o Governo Federal, uma parte provis√≥ria com vastos armaz√©ns e espa√ßosas acomoda√ß√Ķes para carga, al√©m de transferir para seu encargo o trapiche estadual ‚Äú 15 de Novembro ‚Äúe respectiva ponte. Em 1902, a firma B. Rymkiewcz e a Empresa de Melhoramentos do Porto transferem seus contratos para a empresa inglesa ‚ÄúManaos Harbour Limited‚ÄĚ.

Porto de Manaus
Porto de Manaus

Início das obras do Porto de Manaus

Oficialmente as obras de melhoramento do Porto de Manaus tiveram início em 7 de outubro de 1902, em solenidade que contou com a presença do governador do estado Dr. Silvério Nery.
As obras foram realizadas por etapas:

– Em 1903, foi constru√≠da a Casa de M√°quinas ( hoje sede do Museu do Porto ), o armaz√©m n¬ļ 7 e um cais provis√≥rio.
– Em 1904, foram constru√≠dos os armaz√©ns n¬ļ 9 e 10, a torre met√°lica para a caixa- d‚Äô√°gua, as linhas f√©rreas destinadas aos servi√ßos dos armaz√©ns do Porto, o cais do Roadway e instala√ß√Ķes dos primeiros geradores de eletricidade.
– Em 1905, foram cal√ßadas as √°reas em torno dos armaz√©ns n¬ļ 9 e 10.
Construiu-se um pequeno muro de arrimo na base dos mesmos armaz√©ns e um plano inclinado em frente ao armaz√©m n¬ļ 7.
– Em 1906, foi erguido o pr√©dio da Alf√Ęndega e Guardamoria, o segundo trecho do cais de alvenaria, o prolongamento da plataforma de madeira, o armaz√©m n¬ļ 0 e a ponte flutuante do Roadway.
РEm 1907, o prédio do Escritório Geral e as galerias de esgotos.
As obras arrastaram-se morosamente por longos anos, sendo concluídas por volta de 1919.

Alf√Ęndega e Guardamoria

Uma das cl√°usulas do contrato assinado entre Governo Federal e a firma vencedora da concorr√™ncia para a constru√ß√£o do Porto, estipulou como ‚Äúobrigat√≥rio √† constru√ß√£o e doa√ß√£o do edif√≠cio necess√°rio e apropriado para a administra√ß√£o da Alf√Ęndega‚ÄĚ.

A planta e orçamento, realizados pelo engenheiro arquiteto Edmund Fisher, ficaram prontos em 1903, mas somente em 1906. O prédio foi construído.

Anexa a Alf√Ęndega est√° a Guardamoria, constru√≠da no mesmo per√≠odo e com o mesmo estilo arquitet√īnico, destinada ao policiamento fiscal nos portos e a bordo dos navios. Este pr√©dio possui uma torre com farol constru√≠do em a√ßo e, na √©poca, sua ilumina√ß√£o de arco voltaico produzia uma luz de grande intensidade.

Escritório da Manaos Harbour Limited

Edifício projetado para funcionar como escritório geral da empresa no pavimento inferior e moradia dos diretores no pavimento superior.
O projeto do prédio é da autoria dos arquitetos H.M. Fletcher e G. Pinkerton. A construção foi concluída em 1907.

Organização do Porto

O Governo Federal abriu concorr√™ncia para execu√ß√£o das obras de melhoramento do Porto de Manaus no dia 05 de setembro de 1899, 30 anos depois de sancionado a Lei n¬ļ 1746 de 13 de outubro de 1869 pelo Imperador D. Pedro II, que autorizava os presidentes das Prov√≠ncias a contratarem a constru√ß√£o nos diferentes Portos do Imp√©rio, de docas e armaz√©ns para carga e descarga de mercadorias.

Ocorre que em meados de 1890, o Governo Estadual inaugurava o seu trapiche ‚Äú15 de Novembro‚ÄĚ, complexo que abrangia o pr√©dio da Recebedoria (atual setor de Opera√ß√£o), com rampa e sa√≠da direta para o trapiche. Por essas instala√ß√Ķes portu√°rias estaduais despachavam-se as mercadorias na √©poca.

O contrato assinado com a firma B. Rymkiewecz & C¬ļ, vencedora da concorr√™ncia com o Governo Federal, onde obrigava a executar os seguintes servi√ßos: constru√ß√£o do cais e rampa de acesso, regulariza√ß√£o da margem do rio, dragagem e a constru√ß√£o de flutuantes para a atraca√ß√£o de qualquer navio em qualquer √©poca do ano.

Como j√° existiam no local as prec√°rias instala√ß√Ķes estaduais que exploravam os servi√ßos de carga e descarga, a firma assinou um outro contrato com o Governo Estadual (a firma que assinava o contrato era ‚ÄúEmpresa de Melhoramento do Porto‚ÄĚ, mas os donos eram os mesmos), para executar os seguintes servi√ßos: construir e por em explora√ß√£o antes da vazante do rio uma ponte provis√≥ria com vastos armaz√©ns, isto, sem preju√≠zo da execu√ß√£o da concess√£o do Governo Federal. A empresa ainda tornaria a seu cargo para ‚Äúexplorar e ampliar o Trapiche 15 de Novembro e rua ponte com direito de cobrar todas as taxas, al√©m de assinar posterior acordo para ter exclusividade de movimenta√ß√£o de borracha pelo referido trapiche‚ÄĚ.

Em 1902 os dois contratos foram passados à firma Manaos Harbour Limited, firma criada em Londres que além da família Booths tinha como sócio B. Rymkiewecz & Lavandery.

Este problema da exist√™ncia de dois contratos onde os servi√ßos eram praticamente os mesmos, o que se percebe √© que a empresa era a mesma, por√©m com os nomes diferentes e recebiam taxas de embarque e desembarque que se realizava no trapiche estadual e subven√ß√£o do Governo Federal para as constru√ß√Ķes.

A abertura dos portos por D. Jo√£o VI

A Conven√ß√£o Anglo Portuguesa de 22 de outubro de 1807 decidiu a transfer√™ncia da Corte Portuguesa para o Brasil e estabeleceu que, dada a proibi√ß√£o de os navios ingleses freq√ľentarem os portos lusitanos, fechados pelo Bloqueio Continental, ‚Äúmandaria o governo portugu√™s abrir-lhes um porto na Ilha de Santa Catarina, ou em outro ponto qualquer da costa brasileira, pelo qual seriam importados em navios brit√Ęnicos, mercadorias portuguesas e inglesas, pagando os mesmos direitos ent√£o vigentes em Portugal, durante este acordo at√© novo ajuste‚ÄĚ, como ensina o historiador H√©lio Vianna.

Na verdade, as ‚Äúna√ß√Ķes amigas‚ÄĚ restringiam-se basicamente a Inglaterra, porque o resto da Europa estava bloqueada pela esquadra brit√Ęnica e os Estados Unidos ainda n√£o faziam significativa concorr√™ncia comercial. Como as pr√≥prias terras portuguesas estavam ocupadas por franceses e espanh√≥is, alguns historiadores consideram o acordo como a substitui√ß√£o do monop√≥lio luso pelo ingl√™s nos portos brasileiros. Ele ainda duraria v√°rios anos, em raz√£o dos v√°rios tratados assinados entre os dois pa√≠ses at√© a Independ√™ncia do Brasil.

A Carta R√©gia de 28 de janeiro de 1808 √© considerada por H√©lio Vianna como ‚Äúa base de nossa autonomia econ√īmica e, conseq√ľentemente, pol√≠tica‚ÄĚ, pois permitiu o incremento comercial de produtos brasileiros diretamente com o estrangeiro e, portanto, o desenvolvimento da ent√£o sede do reino luso. A Carta foi enviada pelo pr√≠ncipe regente D. Jo√£o VI ao Conde da Ponte, governador da Bahia e que havia comentado com o pr√≠ncipe, quando de sua chegada, dos inconvenientes da suspens√£o do com√©rcio mar√≠timo.

A carta

Conde da Ponte, do meu Conselho, Governador e Capitão-General da Capitania da Bahia Amigo. Eu, o Príncipe-Regente, vos envio muito saudar, como aquele que amo.

Atendendo a representa√ß√£o que fizeste subir √† minha Real presen√ßa, sobre se achar interrompido e suspenso o com√©rcio desta Capitania, com grave preju√≠zo de meus vassalos e da minha Real Fazenda, em raz√£o das cr√≠ticas e p√ļblicas circunst√Ęncias da Europa; e querendo dar sobre este importante objeto alguma provid√™ncia pronta e capaz de melhorar o progresso de tais danos: Sou servido ordenar interina e provisoriamente, enquanto n√£o consolido um esquema geral, que efetivamente regula semelhantes mat√©rias, o seguinte:

Primo; que sejam admiss√≠veis nas Alf√Ęndegas do Brasil, todos e quaisquer g√™neros, fazendas e mercadorias, transportadas ou em navios estrangeiros que se conservam em paz e harmonia com minha Real Coroa, ou em navios dos meus vassalos, pagando por entrada 24 por cento, a saber, 20 de direitos grossos e quatro do donativo j√° estabelecido, regulando-se a cobran√ßa desses direitos pelas pautas ou aforamentos, porque at√© o presente se regulam cada uma das ditas Alf√Ęndegas, ficando os vinhos, √°guas ardentes e azeites doces, que se denominam molhados, pagando o dobro dos direitos que at√© agora nelas satisfaziam.

Secundo: que não só os meus vassalos, mas também os sobretidos estrangeiros possam exportar para os portos que bem lhes parecer, a benefício do comércio e da agricultura, que tanto desejo promover, todos e quaisquer gêneros coloniais, à exceção do pau-brasil e outros notoriamente estancados, pagando por sua saída os mesmos direitos já estabelecidos nas respectivas Capitanias, ficando, entretanto como em suspenso e sem vigor todas as leis, cartas-régias ou outras ordens, que até, aqui proíbam neste Estado do Brasil o recíproco comércio e navegação entre meus vassalos e estrangeiros.

O que tudo assim, fareis executar com o zelo e atividade que de vós espero. Escrita na Bahia, aos 28 de janeiro de 1808. Príncipe.

Roadway

‚ÄúO Servi√ßo de embarque e desembarque de passageiros, √© excelente. Os vapores de qualquer calado atracam ao grande caes fluctuante, onde os passageiros desembarcam com suas bagagens, seguindo pela ponte denominada Roadway, que d√° acesso ao caes de alvenaria. Esta ponte √© uma obra admir√°vel, constru√≠da sobre uma fileira de cilindros fluctuantes estanques, divididos em sec√ß√Ķes ligadas por meio de dobradi√ßas de a√ßo de grande resist√™ncia. O lado de terra se acha ligado √† superf√≠cie do caes de alvenaria e a outra extremidade ao caes fluctuante onde se acham montados grandes armaz√©ns, de maneira que a ponte Roadway acompanha pelo lado do rio o acr√©scimo ou decr√©scimo das √°guas, nas grandes enchentes fica a ponte quase no n√≠vel do caes de alvenaria, ao passo que nas grandes vazantes do rio, se transforma em um perfeito plano inclinado. Pelo centro da ponte √© feito o servi√ßo r√°pido de carga e descarga das mercadorias conduzidas pelos vapores de grande e pequena cabotagem‚ÄĚ.

‚ÄúGrande n√ļmero de wagonetes recebem os volumes na plataforma do caes fluctuante, os quaes seguindo pela linha f√©rrea, entram pela linha que corre pelo centro da ponte, sobem e descem enfileirados, movidos por energia electrica e penetram assim nos armaz√©ns distribuidores de terra, onde s√£o descarregados para serm entregues aos seus propriet√°rios‚ÄĚ.
Do relatório do Eng. Olympio Leite, para o Diccionário Histórico e Etnographico do Brasil para o Centenário da Independência.

Em 1978 a ponte foi atingida pelo navio HELENA, que a partiu ao meio sendo substituída.

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