Quem iria se interessar em mostrar o sofrimento do povo caboclo ribeirinho?

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Em alguns bairros das sedes de munic√≠pios como Tabatinga e Benjamin Constant o n√≠vel do rio Solim√Ķes j√° atinge os assoalhos das resid√™ncias. Foto de 2012 por Ela√≠ze Farias
Em alguns bairros das sedes de munic√≠pios como Tabatinga e Benjamin Constant o n√≠vel do rio Solim√Ķes j√° atinge os assoalhos das resid√™ncias.
Foto de 2012 por Elaíze Farias

Estamos preparados para a nova enchente? Quantas medidas foram tomadas? Ou o povo tem que acreditar que “√© um fen√īmeno natural que n√£o tem nada o que ser feito”.

Essa redação abaixo foi escrita por Ronilson da Silva Procópio, natural de Benjamin Constant, AM. O Ronilson ganhou o Prêmio Escrevendo o Futuro, de 2002, concorrendo contra mais de 190.000 estudantes de todo o país. 10 anos se passaram e parece muito atual.

√Äs vezes penso que o mundo √© injusto, pois sempre tentamos mostrar o lado bom das coisas e camuflar o ruim. Afinal tudo que √© bom tem um pre√ßo. Muitas pessoas se encantam com a beleza do Amazonas, onde a minha cidade, Benjamin Constant, est√° localizada. Tamb√©m √© s√≥ o que interessa mostrar. Claro, faz sentido. Quem iria se interessar em mostrar o sofrimento do povo caboclo ribeirinho? Seria apenas mais um cap√≠tulo triste do nosso Brasil. Mas, se pensarmos sempre em esconder esta realidade, a mis√©ria continuar√°, e quando isso se tornar um s√≥ sofrimento, talvez possamos parar para pensar, para que serve nossa intelig√™ncia, se n√£o soubermos utiliz√°-la. Essa triste cena se repete no Amazonas e principalmente aqui em Benjamin Constant. Com a chegada do inverno, o majestoso rio Amazonas e seus afluentes transbordam. Ent√£o come√ßa todo o sofrimento dos ribeirinhos benjaminenses do Amazonas, pois suas terras ficam todas inundadas, perdendo suas casas, seus bens, suas planta√ß√Ķes e, quando eles t√™m aonde ir, abandonam suas palafitas, mas n√£o podem ou √†s vezes n√£o querem deixar suas moradias, aumentando ainda mais o sofrimento, pois muitos constroem pisos nas casas conforme as √°guas v√£o subindo, mostrando uma cena de sofrimento, ficando como ilha deserta, rodeada pelas √°guas do majestoso rio. Infelizmente os dirigentes muitas vezes ficam de bra√ßos cruzados, assistindo a esta cena de terror, sem fornecer abrigo ou madeira para os alagados, sem fazer campanhas de conscientiza√ß√£o de higiene e sa√ļde. Nessa √©poca fica quase imposs√≠vel de se viver, os peixes ficam raros, a ca√ßa √© imposs√≠vel, os alimentos somem e fica dif√≠cil para quem s√≥ conhecesse esse meio de vida. Muitas crian√ßas morrem afogadas, aumenta o n√ļmero de doen√ßas ocasionadas pelo lixo que as √°guas v√£o levando dos quintais e sanit√°rios. Mas a parte mais revoltante dessa hist√≥ria √© que depois de o povo passar todo tipo de sofrimento, pessoas que n√£o fizeram nada para ajudar aparecem no final, dizendo ter feito projetos para ajud√°-los. Coitado do povo sofredor, que canta pra n√£o chorar. O caso √© que para o Amazonas se tornar um para√≠so est√° muito longe. Muitos falam que Benjamin √© um lugar bom de se viver; na verdade, todo lugar √© bom de se viver para quem tem dinheiro. Essa verdade se reflete no rosto sofrido dos trabalhadores que com suor aos poucos constru√≠ram esta cidade, que esquece seu passado sofrido, e olha para essas pessoas como se elas fossem in√ļteis, sendo, muitas vezes, julgadas pela sua situa√ß√£o s√≥cio-econ√īmica. Ent√£o me pergunto, que futuro n√≥s, filhos desses trabalhadores, esperamos? Pois somos julgados pelos que n√≥s temos e n√£o por sermos pessoas inteligentes. Todos querem um futuro digno e justo. Afinal ningu√©m nasce bandido, nem mesmo professor ou at√© juiz, √© tudo uma quest√£o de oportunidade. At√© mesmo porque hoje em dia o nosso futuro n√£o depende grande parte de n√≥s, mas sim da boa vontade do pr√≥ximo.

(Ronilson da Silva Procópio, 2002)

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