República Popular faz paralelo entre as origens da cultura amazonense e a Manaus urbana em novo disco

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Do solo, brota um recomeço. É nesse terreno fértil que a banda República Popular constrói a sonoridade e o universo de referências de seu mais ousado trabalho até hoje: o disco “Húmus Parte I”, já disponível nos serviços de streaming de música pelo selo Sagitta Records. A primeira metade do álbum duplo revela o som plural de um Amazonas ainda a ser descoberto, embalado pela tradição dos ritmos regionais mesclados à influência oitentista de sintetizadores, vocoders e baterias eletrônicas. “Húmus” repagina a identidade musical da República Popular, se reconectando com suas raízes manauaras. Esse reencontro é evidenciado no clipe “Amazônida”, que anuncia o lançamento do disco em uma animação colorida e vibrante.

Ouça “Húmus Parte I”: http://bit.ly/Humus1

“Húmus” moderniza e desconstrói a visão estereotipada do que é a musicalidade da Amazônia. Ao se apropriar de ritmos como a toada do Boi de Parintins e o carimbó, a banda faz surgir uma mescla urbana e contemporânea que traz frescor à sua própria concepção sonora: os tons do indie rock somados à música brasileira que sempre foram associados à música solar da República Popular ganham novos instrumentos, arranjos e convidados especiais. À veia pop do grupo, soma-se experimentalismo e psicodelia. Tudo isso para dar forma a um retrato muito mais plural da região, e o clipe de “Amazônida” potencializa todas essas inspirações. O estúdio Montanha-Russa, de Curitiba, assina o filme, que tem o ambicioso objetivo de resumir o arco da história de “Húmus”, passando por lendas amazônicas, cantos indígenas, festivais folclóricos e o dia-a-dia de pessoas comuns.

“É correto dizer que o disco conta uma história, não tão óbvia assim, mas é uma história. O clipe de ‘Amazônida’ vem ser a síntese da saga inteira do primeiro disco. Quisemos que o clipe fosse uma linha do tempo dos povos amazônicos, desde as primeiras etnias e tribos, passando pelos caboclos ribeirinhos e finalizando no povo urbano de Manaus. Achamos que ‘Húmus’, com todos seus requintes eletrônicos, pode sim ser considerado um disco de música regional amazonense, a música regional da atualidade, e o vídeo vem trazer isso à tona”, comenta Igor Lobo, que assume violão e vocais. Além dele, a banda é formada por Viktor Judah (vocal e bateria), Vinítius Salomão (vocal e guitarra) e Sérgio Leônidas (vocal e baixo).

O novo trabalho inaugura um ciclo para a República Popular. A banda formada por amigos de escola deu início à sua discografia em 2015, quando gravou seu disco de estreia, “Aberto para Balanço”. 2016 trouxe o EP “Lis”, com letras inspiradas por personagens femininas. Já em 2017, os músicos começaram a revelar o que viria a ser “Húmus”, com a estreia do elogiado clipe “Curió”. Animado pela ilustradora Bianca Mól (autora do livro “Contos de Papel” e conhecida pelo canal de YouTube Garota Desdobrável), o vídeo entregou o compromisso da República Popular em contar histórias com suas novas canções.

A transição para “Húmus” faz referência à ideia de início e fim dos ciclos da vida, tão presente nas letras do trabalho. Nada mais natural que traduzir isso no título, batizando o disco com o tipo de solo mais fértil, formado a partir da decomposição de animais e plantas. Da morte, surge a vida. E do fim de uma era para a República Popular, nasce uma banda ainda mais conectada às suas heranças culturais.

“Queríamos que nosso segundo disco fosse uma homenagem ao Amazonas, mas não expressar isso literalmente. Que fosse um retrato da vida contemporânea aqui, nas letras e nos arranjos. Em determinado momento, percebemos que, morando aqui na maior floresta tropical do mundo, não tínhamos como não trazer isso para as músicas. O amor a sua terra natal é um sentimento muito carregado de legado, de passagem entre gerações, então falar como ciclo da vida cabe como uma luva quando falamos sobre nosso Estado”, analisa Vinítius.

Para construir todo esse mosaico, a República Popular convocou a ajuda de parceiros locais e até mesmo de outro estado, como é o caso do clipe de “Amazônida”. A faixa abre o disco e conta com a participação de David Assayag, cantor renomado de Parintins. “Toada do Amanhã” traz a voz de Arlindo Junior, embaixador da cultura parintinense, conhecido como “Pop da Selva”. Já em “Deus”, a cantora Márcia Novo empresta sua voz já reconhecida nacionalmente como representante do cenário pop de Parintins. Por fim, “Ti Tuí” traz a participação de Renata Martins. O disco foi produzido pelo baterista Viktor Judah e entrega uma República Popular profundamente conectada com suas raízes – mas sem abrir mão de olhar para o futuro.

Tracklist:

1 РAmaz̫nida (part. David Assayag)
2 – Curió
3 – 2& Só
4 РToada do Amanḥ (part. Arlindo Junior)
5 – Deus (part. Márcia Novo)
6 – A Canoa
7 – Carmesim
8 – Ti Tuí (part. Renata Martins)
9 – Revel
10 РR̩quiem
11 – Pra Trazer À Vida Cor
12 РVerde Cora̤̣o

FICHA TÉCNICA

Produzido por Viktor Judah
Gravado e mixado por Viktor Judah (Manaus, AM)
Masterizado por Fernando Sanches РEst̼dio El Rocha (Ṣo Paulo, SP)
Construção tipográfica da capa por Dylan Ranna
Fotografia da capa por Keila Serruya
Performance da personagem “Uyra Sodoma” por Emerson Munduruku
Direitos de uso e reprodução da fotografia adquiridos dos autores
Gravação adicional de teclados por Elifranck Gouvêa na faixa 12

Crédito: Lauren Lauschner

FAIXA-A-FAIXA

1 РAmaz̫nida
Igor Lobo: Amazônida foi o resultado da primeira brainstorm sobre o que poderia ser o novo trabalho da República Popular. Após APB e Lis, entendemos o rumo que naturalmente as ideias vinham tomando. Então, logo de cara, posso dizer que escrever Amazônida, ainda que soe como um trocadilho, foi puramente natural e orgânico. Eu precisava, de alguma maneira, encaixar “orgânico por inteiro” em alguma canção, depois de uma noite inteira sonhando com alguém quase que me intimando a fazer isso. A figura típica do caboclo singrador de rios surge instintivamente, uma vez que as raízes nos levam pra isso. Dessa figura, parte o desejo infindável de tornar o mundo mais amazônico em suas cores, causas, pluralidade. Gravar a canção foi dar vida e atmosfera a esses versos. Dentro do seu próprio universo, colocar voz e acordes foi milimetricamente alinhar a mensagem com a identidade sonora que pensamos. Apesar de não ter sido a primeira faixa a ser gravada, pra mim, pelo o que essa música representa, no seu processo de gravação começou a minha aventura pelo Húmus.

2 – Curió
Igor Lobo: Curió é o sentimento de percepção amorosa sobre as relações. Escrever ‘Curió’, após ‘Amazônida’, já imerso no roteiro pré-definido, foi entender milhões de histórias interpessoais dentro da minha própria história. Retratar todas as formas de amor, com base no que eu entendo por ser amor, na forma de um curió me pareceu conveniente. Além da sonoridade interessante da palavra ‘curió’ pra ser um nome, o próprio passarinho foi um símbolo de aconchego na minha infância. O mesmo aconchego que encontrei na minha vida e muitas vezes presenciei na vida de outras pessoas. Portanto, nada mais adequado. A gravação da canção foi complementar ao que eu havia idealizado quando compus a música. Preciso salientar que eu sou grato imensamente por ter encontrado cada um dos integrantes da RP, porque os meninos têm a capacidade de captar a minha imaginação de uma forma que mesmo eu não consigo externar. Isso ficou claro quando fomos pro estúdio (ou melhor, guarda-roupas) e eles só me puxaram pelo braço: “grava depois senta aqui”. O resto é história, música e amor.

3 – 2& Só

Igor Lobo: 2&só é uma redenção emocional. Basicamente isso. É uma canção que significou um divisor de águas pessoal e, num primeiro momento, eu não a via como parte do Húmus. A letra retrata uma tentativa, sem sucesso, de impedimento do amor acontecer. Em seguida, retrata a volta à tona, o ressurgimento, a reinvenção. Curiosamente, essa é, inclusive, a história da própria música, pelo menos na minha cabeça… Digo isso, porque já algumas vezes vetei (sozinho, diga-se de passagem) a presença de algumas músicas em nossos trabalhos. Todas elas fizeram parte mesmo assim. Portanto, ter escrito 2&só foi (mais) uma forma de me convencer de que é possível resgatar o ato de amar, trazendo-o de volta à tona. As gravações dessa música, em especial vieram pra, de fato, esfregar isso na minha cara. O xote psicodélico arrebata, nem sequer senti como uma música minha, o que pra mim é algo positivo, sinto como se ganhasse vida própria. Dessa forma, 2&só emergiu, surpreendeu (a mim) e consta no meu catálogo pessoal de composições das quais tenho orgulho. Sorria, enfim, passou.

4 РToada do Amanḥ

Viktor Judah: Essa música eu compus originalmente pra ser uma Toada de raiz, que enaltecesse o próprio gênero da toada e do Boi-Bumbá de Parintins. Na letra, falamos sobre o fenômeno do boi nos anos 90, que foi algo jamais visto na música popular amazonense antes, chegando a ultrapassar as fronteiras do Brasil, levando os artistas daqui para turnês na Europa. Foi um período áureo. Durante a produção, as músicas já estavam tomando um caráter mais eletrônico e experimental. Então surgiu a ideia de não seguir a linha tradicional. “E se fizéssemos uma toada eletrônica? Se ao invés de cantos tribais, vocoders? No lugar da batucada e da marujada, Beats eletrônicos e drummachines?” foi o pensamento que ajudou a formatar a música.

5 – Deus

Vinítius Salomão: A primeira ideia dessa música surgiu para mim quando, em algumas conversas informais, mencionamos que seria interessante o álbum conter uma opereta. Logo de cara, já imaginei uma performance dividida em vários atos. Seria algo grandioso e pretensioso, então o conceito “Deus” vinha bem a calhar. Conforme comecei a escrever melodias e versos, as divisões musicais e líricas foram se desenhando de modo natural, de forma que as mudanças dos atos se tornaram bem evidentes, mas ainda coesas. Com o passar do tempo e outras músicas chegando para compor o setlist, percebemos que a abordagem da mini ópera poderia, na verdade, acabar se tornando enfadonha e desinteressante. Dessa forma, enxuguei o que tínhamos até então e escolhi o que tinha de melhor em cada ato para dar corpo à canção final, agora com sutis transações. A linguagem da música é fruto de histórias que ouço desde pequeno e de minhas passagens pelo interior do Estado. Da prece cabocla ao beiradão repleto de beats e sintetizadores, “Deus” exalta a cultura popular amazonense através do sincretismo religioso que toma nossa região, seja no folclore das matas ou nas festas da cidade.

6 – A Canoa

Viktor Judah: Eu tinha esse dedilhado no violão guardado há uns anos, me faltava uma letra. Bastou um fim de semana no interior, remando muito e passando pela frente das casas na beira do rio pra que a inspiração viesse. Pensei nas pessoas que não conheceram outra vida, senão aquela. Pra muita gente, esse é o único universo que existe, cercado de verde e tirando sustento do rio. A canoa foi a metáfora para a morte, que busca tudo que foi aprendido ali, pra levar a outro lugar. Compus a música pensando na voz do Sérgio, ele tem um tom e um timbre que deram peso na letra, uma melancolia grave que pra mim tem tudo a ver com a canção. A música em si começa com uma vibe bucólica e tranquila, que flerta com um xote nos primeiros refrões, mas culmina num rock psicodélico bem Brasil dos anos 60.

7 – Carmesim

Vinítius Salomão: Essa música foi a última a ser composta e gravada, mas talvez seja a minha favorita, mesmo eu achando que poucas pessoas talvez se identifiquem. Surgiu em um estalo numa noite quando já havíamos fechado o repertório completo do disco. A forma como comecei a tocá-la e cantarolá-la foi como se estivesse reproduzindo uma canção que já existia. Gravei uma demo na mesma noite e mandei para os meninos que toparam fazer essa inclusão no setlist. Da mesma maneira que harmonia e melodia me atingiram como um soco, assim foi também com a inspiração lírica. Sempre senti no meu íntimo o desejo de levar o nome do Amazonas para fora, para que muitos conheçam o que nós conhecemos de perto e apreciem toda a riqueza do Estado. Eu estava muito longe de casa quando a escrevi e me senti como o interlocutor narrando o sonho de um menino baré que nasceu, cresceu, lutou e esperou. O sonho é a via que o leva do Amazonas para o mundo e sua pele, carmesim, é o que o traz de volta pra casa.

8 – Ti Tuí

Vinítius Salomão: Ti Tuí é um canto apaixonado de duas notas. Essa canção é bem pessoal para mim, e fala de um período de muitas incertezas e dúvidas na minha vida, principalmente com relação à banda e nosso propósito. Essa música chegou a ter algumas versões diferentes, mas a versão final faz uma síntese do que foi o chamado da arte na minha existência e como isso ditou muito das minhas decisões sem sequer eu perceber. Chamei a Renata Martins, de quem eu sou fã declarado, para cantar comigo e ela topou na hora, deixando o resultado incrível, melhor do que tudo que imaginei.

9 – Revel

Viktor Judah: Essa, particularmente, é minha composição favorita. Escrevi num momento de profunda tristeza, em que só tinha a mim mesmo com quem contar. Todos nós passamos por uma dessas um dia, então “Revel” é um recado do eu-lírico para si mesmo. Apesar de estar na parte 1 do disco, que promete uma sonoridade mais regional amazonense, essa música acabou caminhando para um peso bem rock and roll. Acho que conseguimos compensar isso utilizando de percussão e de flautas. O swing dos refrões também quebra esse clima, especialmente o primeiro, que chega a lembrar a pegada dos Novos Baianos. Há um momento de tensão, no meio da música, que foi uma ideia bem interessante, com intuito de construir um clima totalmente negativo e sombrio, que vai crescendo e ficando mais cheio de barulhos sinistros, mas quando essa parte escurece ao máximo, explode numa parte harmônica e vibrante, cantando que “você tem que persistir”. É literalmente a beleza da música esmagando o clima de negatividade.

10 РR̩quiem

Vinítius Salomão: Essa, em particular, talvez seja a mais bizarra e amarga do disco inteiro. Fico feliz de uma música assim ter espaço em um trabalho nosso, visto que somos lembrados mais pelas baladas “good vibes”. “Réquiem” foi a primeira canção que escrevi longe de casa e a concebi num momento de extrema solidão e melancolia. Ao mesmo tempo que ela veio em um momento de dor, ela também foi redenção. Ela pode passar a impressão de que fala sobre um romance, mas não é necessariamente isso. Há muitos conflitos dentro de nós, alguns até que carregamos por anos, consequências de traumas que não aprendemos a superar. Chega uma hora que precisamos revirar esses sentimentos obscuros e concedê-los o devido fim. O refrão sufocado, mudo, vai ganhando peso conforme o sentimento é confrontado até fazer emergir a voz conformada de aceitação. O fim não precisa ser feliz, você apenas tem que aceitá-lo e achar uma forma de conviver bem com isso.

11 – Pra Trazer À Vida Cor

Viktor Judah: Essa é interessante. Tinha tudo pra ser uma canção curta, de 2 a 3 minutos de duração, mas enquanto produzíamos o disco, pessoas próximas de nós enchiam nossos ouvidos de alertas sobre o “risco da megalomania” prejudicar a recepção do álbum. Essa faixa acabou sofrendo o efeito colateral inverso. No auge das experimentações, comecei a seguir a música adiante sem ligar pra métrica, apenas dando um passeio por onde conseguisse passar com ela. Visitamos várias levadas da música brasileira durante esses 7 minutos e meio, utilizando mais uma vez das baterias eletrônicas, dos vocoders e sintetizadores pra tentar criar algo regional-contemporâneo. Talvez ela possa ser vista como um recado de “não estamos ligando muito pra recepção das músicas, não nesse disco, queremos apenas fazer o que der na telha”. Fiquei muito feliz de ter feito essa faixa e ter transbordado ideias nela, de uma forma tão intensa e sincera, que comecei a me questionar se a verdadeira megalomania não seria fazer músicas num tamanho formatado pro fácil acesso ao público.

12 РVerde Cora̤̣o

Viktor Judah: Eu gosto muito dessa música e de tê-la composto, mas a identificação é zero. Eu, particularmente, não me vejo indo embora do Amazonas e, caso um dia o faça, já farei sonhando com a volta. Mas o fato é que conheço muita gente que guarda esse sentimento, essa vontade de migrar pra outros ares. Não dá pra fingir que, morando num dos cantos mais isolados da Floresta Amazônica, o desejo de ir embora não faz parte do cotidiano das pessoas daqui. Então, compus essa canção como uma carta de amor e despedida, pra traduzir a relação de quem deixa a terra natal, mas a leva no peito. Eu tenho vários amigos que me inspiraram a compor isso, pessoas que estão super felizes por terem ido embora, mas que não abrem mão de falar com amor e orgulho do Amazonas sempre que podem. Eu quero acreditar que nossa terra é grandiosa demais pra que alguém consiga abandoná-la inteiramente. Aqueles que vão, sempre levam um pedaço com eles. O sangue amazonense é forte e resiste às fronteiras.

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