Tudo sobre o Ciclo da Borracha Рdos primórdios até 1920

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Um texto denso sobre o per√≠odo hist√≥rico mais importante da Amaz√īnia. O ciclo da borracha foi um momento importante da hist√≥ria econ√īmica e social do Amazonas, do Par√° e do Brasil!

Seringueiros, durante o ciclo da borracha
Seringueiros, durante o ciclo da borracha

O ciclo da borracha est√° relacionado com a extra√ß√£o de l√°tex e comercializa√ß√£o da borracha. Teve o seu centro na regi√£o amaz√īnica, e proporcionou expans√£o da coloniza√ß√£o, atra√ß√£o de riqueza, transforma√ß√Ķes culturais e sociais, e grande impulso ao crescimento de Manaus, Porto Velho e Bel√©m, at√© hoje capitais e maiores centros de seus respectivos estados, Amazonas, Rond√īnia e Par√°. No mesmo per√≠odo, foi criado o Territ√≥rio Federal do Acre, atual Estado do Acre, cuja √°rea foi adquirida da Bol√≠via, por meio da compra no valor de 2 milh√Ķes de libras esterlinas, em 1903. O ciclo da borracha viveu seu auge entre 1879 e 1912, tendo depois experimentado uma sobrevida entre 1942 e 1945, durante a II Guerra Mundial (1939-1945).

“A Ambi√ß√£o que gerou a conquista,a conquista que gerou o extrativismo onde os caudilhos fixaram suas leis homicidas,o extrativismo que gerou a s√ļbitas fortunas de aventureiros dos quatro cantos.Era o Eldorado,o esplendor de uma selvagem nobreza dos tr√≥picos cujos cen√°rios e costumes foram importados de Inglaterra,Fran√ßa e It√°lia”. – Glauber Rocha,Amazonas Amazonas,1966

A presente pesquisa trata de um per√≠odo de grande import√Ęncia para a regi√£o Amaz√īnica,com grandes repercuss√Ķes socioecon√īmicas,n√£o s√≥ em n√≠vel regional,mas em todo o pa√≠s,que sentiu seu impacto tanto no apogeu quanto do decl√≠nio.Vale salientar que o Brasil dependia da Amaz√īnia para a obten√ß√£o das libras esterlinas,moeda dominante na √©poca,necess√°ria √† manuten√ß√£o do seu com√©rcio internacional,ao pagamento do servi√ßo de sua d√≠vida externa e ao al√≠vio or√ßament√°rio,que permitiu o embelezamento do Rio de Janeiro,capital na √©poca.A arrecada√ß√£o da Amaz√īnia permitiu tamb√©m a constru√ß√£o das estradas de ferro do Centro-Sul,a implanta√ß√£o de novas instala√ß√Ķes portu√°rias e,por incr√≠vel que pare√ßa,permitiu a manuten√ß√£o dos pre√ßos do caf√© (claro que os livros de hist√≥ria n√£o abordam esse fato,jamais que a regi√£o Sudeste iria querer ficar “submissa” a regi√£o dita selvagem).Segundo Ant√īnio Loureiro (a Grande Crise,2* Edi√ß√£o,2008),”S√£o Paulo era a locomotiva na √©poca,mas a Amaz√īnia √© que lhe fornecia os trilhos e o combust√≠vel necess√°rios √†s suas caldeiras.”

 

Primórdios

Os maias
Os maias

A borracha j√° era usada pelos povos pr√©-colombianos desde as √©pocas mais remotas,e uma das facetas mais caracter√≠sticas da civiliza√ß√£o Teotihuacan (300 a.C. a 600 d.C.) foi o jogo ritual√≠stico com bolas de caucho,que se espalhou por todo o continente,chegando at√© a Amaz√īnia,no qual os vencedores,na sua vers√£o centro-americana,eram imolados ao Sol,como Pr√™mio.Por isto o seu uso n√£o passou despercebido aos primeiros cronistas espanh√≥is,entre os quais Tom√°s de Torquemada e Bernardino Sahag√ļn,que a citaram,ainda nos s√©culos XV e XVI,quando dos seus contatos com os povos da Am√©rica Central e do M√©xico.

Tom√°s de Torquemada
Tom√°s de Torquemada
Bernardino Sahag√ļn
Bernardino Sahag√ļn

Dentro da linha cultural luso-brasileira coube ao carmelita frei Manuel da Esperan√ßa a sua primeira descri√ß√£o.Destacado para receber as miss√Ķes jesu√≠ticas espanholas do solim√Ķes,estabelecidas pelo padre Samuel Fritz,n√£o foi feliz neste objetivo,mas ali observou,entre 1690 e 1701,a manipula√ß√£o do l√°tex pelos om√°guas,em seus objetos utilit√°rios.No s√©culo XVIII,o s√°bio franc√™s Charles Marie de La Condamine,em 1736,descreveu as suas primeiras experi√™ncias com a goma el√°stica e a sua aplica√ß√£o pelos nativos da Amaz√īnia para diversos fins,como na fabrica√ß√£o de diversos utens√≠lios de uso cotidiano,como sapatos e garrafas,ou no revestimento de tecidos.Mais tarde,em 1745,no Relato Abreviado de uma Viagem feita ao Interior da Am√©rica Meridional informava que os “portugueses” da Amaz√īnia fabricavam seringas sem √™mbolos,trabalho aprendido no seu trato com os cambebas.Estas seringas nada mais eram que as peras de borracha usadas,at√© hoje,como duchas ginecol√≥gicas.

Charles Marie de La Condamine
Charles Marie de La Condamine

Bolas,borrachas de apagar,sondas (algalias),tecidos para cintos,ligas e suspens√≥rios,sacos e encerados e galochas foram as primeiras utilidades de borracha a entrar nos mercados europeu e norte-americano,iniciando uma procura mais ou menos intensa da mat√©ria-prima,no come√ßo do s√©culo XIX.Nesta √©poca,a produ√ß√£o concentrava-se na regi√£o em torno de Bel√©m e nas ilhas do arquip√©lago de Maraj√≥,e naquela cidade havia uma florescente ind√ļstria de exporta√ß√£o de milhares de galochas e de sapatos impermeabilizados,movimentando economicamente o seu porto.Os sapatos de borracha eram bem aceitos no mercado norte-americano,e os jornais daquele pa√≠s comumente publicavam reclames oferecendo partidas desse artigo nos seguintes termos.

“A borracha chegou aos USA e,com o entusiasmo t√£o caracter√≠stico dos americanos,todos querem um par de sapatos de borracha”¬Ļ

¬Ļ Cit.por Tocantins,Leandro – Amaz√īnia,natureza,homem e tempo,Editora Conquista,Rio de Janeiro,1963.

Para que a aplica√ß√£o industrial da borracha viesse a ocorrer foram necess√°rios,no entanto,investiga√ß√Ķes e pesquisas que,finalmente,permitiram tornar o produto mais est√°vel,n√£o – vulner√°vel,por exemplo,√†s altera√ß√Ķes do ambiente.Seu uso foi ampliado a partir da Vulcaniza√ß√£o,tratamento com enxofre e calor feito por Charles Goodyear (1839),que promovia maior durabilidade das qualidades el√°sticas do l√°tex.Por toda a segunda metade do s√©culo,ampliou-se cada vez mais o uso da borracha.

Charles Goodyear
Charles Goodyear

Antes mesmo da ampla vulgarização do automóvel no início do século XX,o uso de luvas de borracha foi uma importante contribuição para a assepsia médica.Preservativos sem costuras longitudinais se difundiram na Inglaterra vitoriana,facilitando o controle da natalidade e da transmissão de doenças venéreas.Bernard Shaw referiu-se a tal proteção de borracha como a maior invenção do século XIX.

Uma Nova Matéria-Prima dos Trópicos

O crescimento da demanda,os pre√ßos altos e a fuga de bra√ßos para a extra√ß√£o,foram na mesma √©poca percebidos pelo governador do Par√° que,num documento oficial de 1854,censurava a absor√ß√£o crescente da m√£o-de-obra no fabrico da borracha,em detrimento da produ√ß√£o de bens de consumo,que j√° come√ßavam a merecer a importa√ß√£o de outras prov√≠ncias.Em 1852,segundo relat√≥rio de Tenreiro Aranha,primeiro governador da Prov√≠ncia do Amazonas,as for√ßas econ√īmicas estavam deixando algumas atividades agr√≠colas e industriais,implantadas no per√≠odo colonial,para se dedicar ao extrativismo.O Amazonas,at√© 1820,tinha alguma agricultura,especialmente algod√£o,caf√©,tabaco,anil,guaran√° e cacau,al√©m de atividade industrial,como cordoarias,olarias,f√°bricas de sab√£o,e de panos de algod√£o e pequenos estaleiros.Mas Tenreiro Aranha se queixava que as gentes

“Dividida em bandos,que todos os anos iam √†s grandes praias,com excessos e bacanais,fazer a destrui√ß√£o dos ovos de tartaruga e o fabrico das manteigas,ou para os matos,com maiores riscos e priva√ß√Ķes,extrair os produtos espont√Ęneos,no que gastavam mais da metade do ano”.¬≤

² Cit.em.Loureiro,Antonio.O Amazonas na época imperial.Manaus,1989.

A Guerra da Borracha

Retirantes da seca de 1877. Desenho especial de Percy Lau para o livro Geografia da Fome de Josué de Castro 7a edição 1961
Retirantes da seca de 1877.
Desenho especial de Percy Lau para o livro Geografia da Fome de Josué de Castro 7a edição 1961

Entre 1877 e 1879,o nordeste brasileiro sofre uma das piores secas de sua hist√≥ria.Somente do Cear√°,mais de 65.000 pessoas partem para a Amaz√īnia,acossados pelo flagelo natural e pela crise da economia agr√°ria.Esse contingente humano vai servir de m√£o-de-obra nos seringais,avan√ßando a fronteira do extrativismo.Em pouco tempo,a maioria desses cearenses entra pelo rio Purus,ocupando zonas ricas em seringueiras.No final da d√©cada estar√£o no Acre,territ√≥rio reivindicado pela Bol√≠via,Brasil e Peru.

Os bolivianos,impotentes para impedir a invas√£o brasileira,associam-se a grupos econ√īmicos europeus e norte-americanos,fundando o Bolivian Syndicate,que se encarregaria de garantir o dom√≠nio boliviano no territ√≥rio e explorar os recursos naturais pelo prazo de dez anos.Os empres√°rios brasileiros decidem enfrentar a amea√ßa apresentada por t√£o poderosa associa√ß√£o.

Em maio de 1899,aproveitando a madrugada,o navio de guerra norte-americano Wilmington parte do porto de Bel√©m e ilegalmente navega o rio Amazonas acima,rumo ao Acre.O navio √© interceptado perto de Manaus e o governo brasileiro protesta junto ao governo dos Estados Unidos,provocando uma deteriora√ß√£o nas rela√ß√Ķes dos dois pa√≠ses.No dia 14 de junho de 1899,com o apoio de pol√≠ticos e empres√°rios amazonenses,o aventureiro espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Aria,√† frente de um ex√©rcito de bo√™mios e artistas de teatro,ocupa o territ√≥rio e funda o Estado Independente do Acre,sendo deposto no final do mesmo ano por uma flotilha da marinha brasileira.Era uma demonstra√ß√£o,um tanto burlesca,√© certo,das inten√ß√Ķes do empres√°rios amazonenses.

No dia 6 de agosto de 1902,comandando um ex√©rcito de guerrilheiros recrutados entre seringueiros,o jovem Pl√°cido de Castro,ga√ļcho de S√£o Gabriel,entra na cidade de Xapuri e,ap√≥s prender o intendente boliviano,Juan de Dios Barrientos,proclama novamente o Estado Independente do Acre.Nos pr√≥ximos meses,esse estrategista talentoso,com homens de pouca instru√ß√£o militar,mover√° uma guerra contra o ex√©rcito boliviano,criando uma situa√ß√£o de fato naqueles territ√≥rios cobi√ßados.O governo brasileiro,temendo a amplia√ß√£o do conflito,manda uma poderosa for√ßa militar,sob o comando do general Ol√≠mpio da Silveira,o mesmo que derrotara os rebeldes de Canudos e mandara degolar os prisioneiros,para ocupar o Acre,obrigar Pl√°cido de Castro a depor as armas e levar a quest√£o para a mesa diplom√°tica.

José Plácido de Castro
José Plácido de Castro

A Bol√≠via pensou em reagir novamente quanto a tomada do territ√≥rio acreano, mas antes que ocorresse alguma batalha significativa, o Bar√£o do Rio Branco intermediou diplomaticamente propondo um acordo entre o Brasil e a Bol√≠via, que ficou conhecido como o Tratado de Petr√≥polis. Ambos os pa√≠ses assinaram esse tratado em 21 de mar√ßo de 1903.Nesse tratado a Bol√≠via concordava em vender o territ√≥rio de 191.000 km¬≤,para o Brasil,pelo pre√ßo de dois milh√Ķes de libras esterlinas.

O Começo de uma Era de Riquezas

Em meados do s√©culo XIX,ap√≥s os anos de pesadelo vividos com a Reg√™ncia,dois acontecimentos indicavam aos habitantes da Amaz√īnia que eles estavam vivendo um novo tempo,com estabilidade pol√≠tica e progresso econ√īmico.Para uma regi√£o cansada de tanta agita√ß√£o pol√≠tica,era como poder respirar sossegado.O primeiro acontecimento foi a cria√ß√£o da Companhia de Navega√ß√£o e Com√©rcio do Amazonas,sob a iniciativa do Bar√£o de Mau√°.As linhas regulares foram iniciadas em 1852,com tr√™s pequenos vapores,intensificando o com√©rcio entre as duas prov√≠ncias brasileiras e o Peru.

Vapor na Amaz√īnia
Vapor na Amaz√īnia
Irineu Evangelista de Sousa,o Bar√£o de Mau√°
Irineu Evangelista de Sousa,o Bar√£o de Mau√°

O segundo acontecimento,de algum modo consequ√™ncia do primeiro,foi o decreto Imperial abrindo o rio Amazonas ao com√©rcio de todas as na√ß√Ķes,assinado em 1866.

O cosmopolitismo do “ciclo da borracha”,face e sinal de uma triste aliena√ß√£o,parece algo for√ßado,produto de um salto brusco.A Amaz√īnia,na historiografia esquem√°tica que se escreve sobre ela,parece ter experimentado um vigor inesperado que a retirou do silencioso passado colonial,com suas vilas de poucas casas,para um ritmo trepidante e voraz.Uma nova psicologia obrigava as elites a j√° n√£o se satisfazerem com a vida pacata e provinciana.O com√©rcio da borracha vinha proporcionar inquietudes in√©ditas.

Interior do High Life Bar,Manaus,1900
Interior do High Life Bar,Manaus,1900

Evidentemente,essa concep√ß√£o √© um tanto folhetinesca,mas n√£o deixa de ter um sabor de √©poca,refletindo a rapidez com que essa transforma√ß√£o da superestrutura realmente aconteceu.O sabor do folhetim nos mostra o quanto o valor do l√°tex era capaz de deslizar at√© os mais remotos pensamentos,restaurando os mores,ampliando os costumes.Cada salto na cota√ß√£o da bolsa de Londres que a borracha sofria era uma erup√ß√£o na placidez provinciana.Passo a passo,o enriquecimento conjurava o marasmo e representava uma conquista do refinamento civilizado.Concretamente,as circunst√Ęncias n√£o passavam de um furor do momento.Mesmo quando eram c√īmicas ou tr√°gicas.

Os Componentes Humanos da Sociedade do L√°tex

As personalidades mais representativas do “ciclo da borracha” s√£o predominantemente aventureiras,metropolitanas e rom√Ęnticas.Para al√©m da diferen√ßa e nuan√ßas psicol√≥gicas,a vibra√ß√£o e o esp√≠rito de modernidade as tornam agressivas.O jovem coronel-engenheiro Eduardo Ribeiro governando o Amazonas durante a nascente Rep√ļblica,movimentando um fabuloso er√°rio p√ļblico,sonha com uma Manaus imensa,urbanizada e pr√≥spera,como uma Paris dos Tr√≥picos.

Eduardo Gonçalves Ribeiro
Eduardo Gonçalves Ribeiro

O tamb√©m jovem comandante Pl√°cido de Castro,ex-militar e ex-maragato,homem de coragem e caudilho eficiente,promove uma guerra popular no territ√≥rio acreano,valendo-se de uma frente √ļnica de seringueiros e seringalistas,sonhando com o fim da monocultura e com uma sociedade justa e liberta das manobras do imperialismo.

Pl√°cido de Castro
Pl√°cido de Castro

Ermanno Stradelli,um autêntico conde italiano,poeta e etnólogo por conta própria,troca o seu palácio piacentino de Borgotaro pelas malocas indígenas do Amazonas,levantando um rico e precioso acervo literário e etnográfico.

Conde Ermanno Stradelli
Conde Ermanno Stradelli

A Amaz√īnia e a Administra√ß√£o Federal

De 1850 a 1860,a borracha em p√©las atinge o primeiro lugar na pauta de exporta√ß√£o,para crescer e devorar as outras atividades e instaurar um per√≠odo de sensacionalismos.Quando veio a Independ√™ncia,os agentes econ√īmicos do Gr√£o-Par√° e Rio Negro sofreram as consequ√™ncias da ordem imperial,arrogante e centralizadora.Com a borracha,viriam os ideais do federalismo e a classe dominante regional,no alvorecer da Rep√ļblica,entrega-se a si mesma na certeza de que o futuro estava garantido pelo monop√≥lio da h√©vea.O golpe militar de 15 de novembro surpreende a Amaz√īnia nesse sonho.Instalam-se governos provis√≥rios no Par√° e Amazonas,porque o novo regime n√£o confiava naqueles pol√≠ticos enfatuados que mais pareciam aristocratas.

A Rep√ļblica nomeou sucessivos interventores at√© ter certeza de que a Amaz√īnia n√£o corria o risco de se transformar numa nova Vend√©ia.E instalaram alguns militares no poder,j√° que eles aparentemente encarnavam o ideal do progresso positivista,r√°pido e regenerador,inexistente nos pol√≠ticos locais,que n√£o sabiam aproveitar a capacidade da economia da borracha para gerar divisas em libras esterlinas,t√£o necess√°rias ao equil√≠brio do com√©rcio internacional o Brasil e para dar elasticidade ao or√ßamento federal,permitindo as reformas urbanas do Rio de Janeiro,a constru√ß√£o das estradas de ferro no Centro-Sul e as amplia√ß√Ķes das instala√ß√Ķes portu√°rias da capital e de Santos.

Se as incertezas provocadas pela chegada do regime republicano iria,no Sul,provocar dissabores aos cafeicultores,na Amaz√īnia,a estabilidade da borracha manter-se-ia firme,o mesmo n√£o podendo ser dito da pol√≠tica.A desconfian√ßa dos republicanos em rela√ß√£o aos grupos pol√≠ticos regionais provocar√° um permanente atrito,sobretudo por barrar os especuladores locais do caminho do er√°rio p√ļblico.Eduardo Ribeiro,governador indicado para o Amazonas,por exemplo,sofrer√°,ao longo de seus dois per√≠odos de governo,vigorosos e baixos ataques,at√© que,em 1900,o amazonense Silv√©rio Nery,representante dos poderosos extrativistas,assume o poder,restabelece antigos sistemas administrativos e torna obrigat√≥rio o beneficiamento sum√°rio da borracha em Manaus.

Pélas de borracha
Pélas de borracha

A velha letargia dos tempos de D.Pedro II √© sacudida pelo novo compasso do mercado internacional.Os extrativistas n√£o mais se sentiam tolhidos pela impossibilidade tecnol√≥gica de domar a regi√£o,nem tampouco pelas limita√ß√Ķes de seu saber.Invadiram a selva,pois para isso bastava um pouco de viv√™ncia,subordinado-se ao caprichos da h√©vea.Regi√Ķes inteiras,antes vedadas pelas doen√ßas,percorridas apenas por √≠ndios n√īmades e penetradas por solit√°rios aventureiros,foram invadidas por ca√ßadores em busca da seringa.A ideologia do Far-West enfrentava os insetos e os males estranhos e mortais.As libras esterlinas n√£o escolhiam grau de instru√ß√£o ou escolaridade,o l√°tex redimia a ignor√Ęncia.O colono analfabeto assume ares de cosmopolita,torce o nariz para a antiga vida tradicional.

Bazar Passe-Partout,Manaus,início do século XX
Bazar Passe-Partout,Manaus,início do século XX

 

Belle √Čpoque Tropical

Au Bon Marche em Manaus
Au Bon Marche em Manaus

Os coron√©is da borracha,enriquecidos na aventura,resolveram romper a √≥rbita cerrada dos costumes coloniais,a atmosfera de isolamento e tentaram transplantar os ingredientes pol√≠ticos e culturais da Velha Europa,matrona pr√≥spera,vivendo numa √©poca de fast√≠gio e menopausa.O clima do Far-West seria vis√≠vel nas capitais amaz√īnicas subitamente emergidas das estradas de seringa.

O Par√°,Emp√≥rio Comercial da Grande Bacia Amaz√īnica

Boulevard Castilhos França,Belém,início do século XX
Boulevard Castilhos França,Belém,início do século XX

As cidades foram,em todos os pa√≠ses,os cen√°rios mais espetaculares da Belle √Čpoque.Interven√ß√Ķes urban√≠sticas modernizaram ou renovaram suas fei√ß√Ķes,expressando a realiza√ß√£o dos anseios e do desejo das elites em se mostrarem progressistas e afinadas com o gosto europeu.No Brasil,a renova√ß√£o das cidades,o afastamento das classes pobres dos limites urbanos,a implanta√ß√£o de uma est√©tica que rompe com os padr√Ķes coloniais e o cosmopolitismo s√£o parte de um vocabul√°rio comum √†s cidades progressistas transformadas pelo urbanismo t√©cnico,pelas medidas higienizadoras e pelas muitas medidas de controle social; a moderniza√ß√£o da cidade do Rio de Janeiro √©,a esse respeito,emblem√°tica.Embora estas iniciativas tamb√©m tenham se feito presentes na Amaz√īnia,√© preciso ressaltar a especificidade de sua consolida√ß√£o nas duas capitais,Bel√©m e Manaus – de hist√≥rias e tradi√ß√Ķes muito distintas,ainda que igualmente favorecidas pela economia da borracha.

Ciclo da Borracha na Amaz√īnia
Ciclo da Borracha na Amaz√īnia

Santa Maria de Bel√©m do Gr√£o-Par√° foi fundada no s√©culo XVII como uma cidade-fortaleza,uma das iniciativas do imp√©rio portugu√™s visavam √† defesa da regi√£o setentrional da col√īnia,objeto de sucessivas disputas entre franceses,holandeses e espanh√≥is.Quando,em meados do s√©culo XVIII,o s√°bio franc√™s La Condamine desceu o Amazonas,reconheceu no Par√° uma cidade com “ruas bem alinhadas,casas risonhas,magn√≠ficas igrejas”.

Em 1751,com a chegada do novo governador,Mendon√ßa Furtado – irm√£o do marqu√™s de Pombal,imbu√≠do do projeto iluminista de restaurar a Amaz√īnia -,a cidade ascendeu a capital da unidade administrativa agora denominada do Gr√£o-Par√° e Maranh√£o,diretamente ligada a Lisboa e destacada do Brasil.

Neste momento,chegam √† cidade v√°rios cart√≥grafos e engenheiros,um corpo de profissionais e t√©cnicos que atuaria nas comiss√Ķes de demarca√ß√£o do territ√≥rio amaz√īnico.O fato de Bel√©m ter se tornado a capital √© expressivo da efic√°cia pretendida em rela√ß√£o aos controles do territ√≥rio amaz√īnico e do lugar que o aspecto urbano assumia no projeto pombalino.Muitos dos t√©cnicos permaneceram no Par√° e estabeleceram descend√™ncia,ampliando as bases da elite paraense.A cidade ganhou novos contornos e foi objeto de investimentos para a regulariza√ß√£o dos espa√ßos p√ļblicos e a implanta√ß√£o e espa√ßos e institui√ß√Ķes sinalizadoras do poder,refazendo-se,na capital do Gr√£o-Par√°,o urbanismo monumental da capital do reino.O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,em seu livro Viagem Filos√≥fica,apresenta minuciosas vistas aquareladas e o plano geral da cidade de Bel√©m,a qual,mesmo em sua expans√£o durante o s√©culo XIX,manteve o padr√£o proposto pelo urbanismo portugu√™s.

Robert Christian Ave Lallemant
Robert Christian Ave Lallemant

Em 1859,a cidade,com seus 25.000 habitantes,causou boa impress√£o ao estudioso Ave-Lallemant,a quem chamou a aten√ß√£o o magn√≠fico pal√°cio do presidente,por ele considerado um dos melhores edif√≠cios do Brasil – numa cidade onde registrou haver “ruas de bom aspecto,casas distintas,igrejas vetustas,um antigo convento” ,como lemos no seu livro No rio Amazonas-,muito embora nada lhe subtra√≠sse o ar antigo e portugu√™s.Nela,tudo parecia velho! Causavam-lhe esp√©cie as maneiras de trajar dos homens e mulheres no Par√°: vestiam-se pela √ļltima moda francesa,com caudas e anquinhas,fraques e cartolas.Nas casas de fam√≠lia havia sempre um piano,e bandas marciais tocavam hinos patri√≥ticos;estas marcas do que Ave-Lallemant chamou de “europeiza√ß√£o” acentuar-se-iam nas d√©cadas seguintes,com a amplia√ß√£o do n√ļmero dos que a ela tiveram acesso.

Poucos anos ap√≥s a estada de Ave-lallemant na cidade,Hasting,um major americano respons√°vel pela vinda de confederados americanos para o Par√°,foi mais favor√°vel em suas observa√ß√Ķes: ao passar por Bel√©m,impressionou-se com a impon√™ncia da cidade,suas longas avenidas arborizadas com mangueiras frondosas,numerosas pra√ßas p√ļblicas e ilumina√ß√£o a g√°s.

Na √ļltima d√©cada do s√©culo XIX,a cidade,aos olhos dos paraenses,ainda deixava a desejar,na medida em que,sob muitos aspectos,mantinham-se os tra√ßos do urbanismo colonial reconhecidos por seus visitantes.Na “era dos engenheiros”,quando a borracha tornava palp√°vel o progresso,o Par√° se modernizou.Jovens paraenses – engenheiros,militares de ideologia positivista -,articulados em redes nacionais de rela√ß√£o com seus colegas de forma√ß√£o estabelecidos na capital da Rep√ļblica,promoveram ou respaldaram as altera√ß√Ķes que imprimiriam √† cidade os sinais da nova ordem do progresso.

Em obra de 1895,o bar√£o de Maraj√≥ descrevia em min√ļcias as mudan√ßas que transformaram Bel√©m na √ļltima d√©cada do s√©culo XIX,propiciando,a partir de ent√£o,uma altera√ß√£o positiva da “prosperidade p√ļblica”,a “purifica√ß√£o de nossos costumes” e o aperfei√ßoamento dos esp√≠ritos.Sua opini√£o encerra as observa√ß√Ķes do historiador e do pol√≠tico cuja atua√ß√£o na Intend√™ncia Municipal de Bel√©m,logo ap√≥s a instaura√ß√£o da Rep√ļblica,certamente favoreceu as transforma√ß√Ķes a que se refere.Com orgulho,enfatiza as inova√ß√Ķes promovidas pelas √ļltimas administra√ß√Ķes do per√≠odo republicano,financiadas por uma “lisonjeira” economia em que os impostos advindos da exporta√ß√£o permaneciam na esfera da administra√ß√£o estadual e os oriundos da importa√ß√£o eram da esfera da administra√ß√£o federal.Ampliaram-se as ofertas de ensino,superando-se com isso o per√≠odo em que a instru√ß√£o p√ļblica era t√£o insuficiente que “obrigava os pais a mandarem os filhos para o estrangeiro”.Sem d√ļvida,o bar√£o se referia aos filhos das fam√≠lias dos segmentos mais abastados,os pecuaristas do Par√° ou aqueles oriundos da crescente classe m√©dia,sedentos de educa√ß√£o formal como parte fundamental de suas trajet√≥rias em busca de posi√ß√£o e prest√≠gio social.Foi o caso da maioria dos filhos da elite de Manaus,onde faltavam as marcas de distin√ß√£o advindas da riqueza da terra.

No fim de 1895,Bel√©m era uma cidade com √°rea igual a de Madri,cortada por amplas avenidas e grandes estradas direcionadas para os novos bairros que recebiam as fam√≠lias em processo de eleva√ß√£o social.pra√ßas ajardinadas,edif√≠cios da administra√ß√£o p√ļblica,v√°rias escolas,hospitais,asilos e cadeia compunham as institui√ß√Ķes de controle e reprodu√ß√£o social.Completavam o conjunto urbano,com seus servi√ßos e numerosas atividades,os estabelecimentos industriais,casas banc√°rias e firmas seguradoras,e ainda as companhias de servi√ßos urbanos: tel√©grafos,telefonia,linhas de bonde e estrada de ferro.

Travessa Frutuoso Guimaraes - Rua 15 de Novembro , Belém Antiga
Travessa Frutuoso Guimaraes РRua 15 de Novembro , Belém Antiga

As quase 100.000 pessoas que viviam em Bel√©m dispunham ainda de institui√ß√Ķes culturais e recreativas,religiosas e laicas.Nas docas do Par√° chegavam duas companhias inglesas,fazendo de dez em dez dias a navega√ß√£o para Lisboa,Havre,Liverpool,Antu√©rpia,Nova York,Maranh√£o,Cear√°,Pernambuco e Manaus,al√©m da navega√ß√£o costeira at√© o Maranh√£o e da linha inglesa com vapores semanais do Rio a Pernambuco,Par√° e Nova York.

A transformação radical pela qual Belém passou estendeu-se ainda por toda a primeira década do século XX,de modo que a renovação urbana concretizada pelos engenheiros republicanos e o cosmopolitismo facilitado pela intensificação da exportação promoveram,pelo menos entre os paraenses,a sensação de que Belém era uma das melhores cidades do Brasil.Era indiscutível a prosperidade visível nas ruas,na monumentalidade das avenidas,e a euforia retratada na agenda dos acontecimentos culturais e sociais,conforme registravam os jornais.

Belém Antiga, do início do século XX - em destaque o Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, a Doca do Ver-o-Peso e a área verde era a Praça Afonso Pena; atual D. Pedro II
Belém Antiga, do início do século XX Рem destaque o Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, a Doca do Ver-o-Peso e a área verde era a Praça Afonso Pena; atual D. Pedro II

Como resultado da expans√£o da economia da borracha e do crescimento geral das finan√ßas do estado,a elite de fazendeiros,comerciantes,profissionais liberais e grandes seringalistas passou a viver na capital.As medidas modernizadoras e a reforma urbana impuseram restri√ß√Ķes √†s camadas mais populares.O centro hist√≥rico foi mantido em sua escala e tra√ßado do per√≠odo colonial,e ampliou-se o per√≠metro da cidade em dire√ß√£o ao porto – afinal,a parte da cidade que melhor expressava o dinamismo econ√īmico e as atividades de importa√ß√£o e exporta√ß√£o que garantiam a riqueza da municipalidade.

Em 1907,Bel√©m contava com 192.230 habitantes.No porto do Par√°,term√īmetro da vicejante economia,o vaiv√©m de pessoas e mercadorias era grande: das 36.026 pessoas que entraram no estado naquele ano,quase 11.600 permaneceram na capital,absorvidas pelas atividades comerciais e pelos estabelecimentos industriais.

Antigo Igarapé das Almas, no Reduto Antigo, Belém
Antigo Igarapé das Almas, no Reduto Antigo, Belém

O embelezamento da cidade resultava de altera√ß√Ķes urban√≠sticas e arquitet√īnicas estimuladas por uma legisla√ß√£o que procurava modernizar os espa√ßos p√ļblicos e dotar de certas caracter√≠sticas as constru√ß√Ķes,imprimindo,nas fachadas dos pr√©dios,eleg√Ęncia est√©tica,graciosidade e uma racionalidade condizente com as necessidades de ventila√ß√£o e higiene exigidas pelo clima.

Palacete Brício Costa
Palacete Brício Costa

Antonio Lemos,intendente de Bel√©m,em relat√≥rio de 1905,comentava,desgostoso,o desequil√≠brio est√©tico de parte dos edif√≠cios,sugerindo sua demoli√ß√£o e incentivando o apuro arquitet√īnico nas novas edifica√ß√Ķes.O apelo teve resson√Ęncia,as restri√ß√Ķes se impuseram e,de fato,no cen√°rio urbano de Bel√©m e Manaus do in√≠cio do s√©culo,consagraram-se as fachadas que expressavam a incorpora√ß√£o de novas t√©cnicas,dos princ√≠pios de higiene e das normas est√©ticas.Novos materiais de constru√ß√£o chegavam da It√°lia,de Portugal e da Fran√ßa,de onde vinham tamb√©m muitos dos profissionais que cuidaram de executar as altera√ß√Ķes de estilo.

Antonio Lemos, Intendente de 1897 a 1911
Antonio Lemos, Intendente de 1897 a 1911

√Č importante considerar a dimens√£o moral das transforma√ß√Ķes urbanas,no sentido de impor regras de conduta e h√°bitos de higiene e racionalizar o uso dos espa√ßos p√ļblicos.O c√≥digo de posturas previa multas para os que jogassem √°guas utilizadas e quaisquer tipo de dejetos nas ruas,e os jornais anunciavam o hor√°rio em que passariam os carros de coleta do lixo,a ser posteriormente incinerado.

Apesar das medidas,no in√≠cio do s√©culo XX,Bel√©m e Manaus eram grandes focos de febres palustres,especialmente a mal√°ria,que dizimava sobretudo os estrangeiros,desprovidos de imunidade.Para solucionar o problema – que difamava a cidade e amedrontava seus moradores -,o governo promoveu uma campanha de erradica√ß√£o do impaludismo,solicitando os servi√ßos de Oswaldo Cruz entre 1910 e 1911.Contudo,j√° no pr√≥prio in√≠cio do s√©culo XX,quando os postais eram uma das express√Ķes mais vivas da sociabilidade brasileira,entre as imagens que circulavam nos cart√Ķes,exibindo os sinais do novo e da modernidade,n√£o faltavam as vistas coloridas de Manaus e Bel√©m.

Manaus Antiga
Manaus Antiga
Belém Antiga Caza Do Povo 1900Mm
Belém Antiga Caza Do Povo 1900Mm

 

Manaus,a surpreendente Paris das Selvas

A continuidade hist√≥rica entre a povoa√ß√£o da Fortaleza de S√£o Jos√© do Rio Negro,fundada no s√©culo XVII,e a capital da prov√≠ncia do Amazonas n√£o √© imediata,caso se busque na povoa√ß√£o o car√°ter urbano,a perman√™ncia dos pr√©dios ou dos sinais das institui√ß√Ķes do Imp√©rio portugu√™s e,depois,do Imp√©rio brasileiro.Nesse aspecto,a diferen√ßa entre Bel√©m e Manaus √© acentuada.N√£o √© inusitado o fato de que,mais do que Bel√©m,Manaus seja considerada a “capital” da borracha,pois foi na ocasi√£o do boom deste produto que a cidade ganhou visibilidade,projetando-se internacionalmente como uma cidade moderna,dotada de sofisticados meios de transporte e comunica√ß√£o.

Ruínas da fortaleza da Barra do Rio Negro,início do século XIX
Ruínas da fortaleza da Barra do Rio Negro,início do século XIX

Como vila ou cidade,Manaus teve seu nome submetido √† altern√Ęncia de dois crit√©rios: o da localiza√ß√£o geogr√°fica na Barra do Rio Negro e o que privilegiava a refer√™ncia √† ocupa√ß√£o da √°rea por ind√≠genas,entre eles os Mana√≥s.Com a cria√ß√£o da prov√≠ncia do Amazonas em 1852,a cidade da Barra do Rio Negro tornou-se sua capital e,em 1856,a Assembl√©ia Legislativa provincial sancionou a lei que mudava o nome para Manaus.O fato foi motivo de comemora√ß√£o para a popula√ß√£o,pois,como registrou o peri√≥dico Estrela do Amazonas,em setembro de 1856,”todos acham o nome Mana√≥s mais nosso,mais significativo”.A escolha privilegiava mais a refer√™ncia aos grupos ind√≠genas que ali viviam – Bar√©s,Pass√©s,Banibas e Mana√≥s (sendo esta a √ļltima tribo sobre a qual a denomina√ß√£o portuguesa havia sido mais contundente) – que a pouco linear hist√≥ria pol√≠tica e administrativa da prov√≠ncia e da cidade que seria sua capital.

Era marcante a precariedade das ruas estreitas entrecortadas por igarapés,a simplicidade do casario e a exclusividade do pequeno comércio.A morfologia social era marcada pelo caráter disperso da população,que permanecia boa parte do ano pelas matas,dedicada às atividades de coleta,caça e pesca.

Manaus em 1860
Manaus em 1860

Todas essas caracter√≠sticas s√£o temas recorrentes nos registros de viajantes que por ali passaram at√© a d√©cada de 1880.O crescimento da popula√ß√£o da capital,not√°vel no fim dos anos 80 (quando a cidade tinha 38.720 habitantes),n√£o alterou,do ponto de vista da implanta√ß√£o urbana,uma atitude diante da natureza menos de interven√ß√£o do que de adequa√ß√£o – pela falta de recursos ou de iniciativas.Manaus n√£o era de modo algum objeto de admira√ß√£o por parte da elite que ali vivia,que falava da cidade como uma “aldeia” e sonhava com um espa√ßo urbano em tudo distante do que ela evocava de mais forte: a presen√ßa impertinente da natureza por toda parte.√Äs v√©speras da proclama√ß√£o da Rep√ļblica,a cidade permanecia acanhada,constrangida especialmente pelo rio,para onde estava voltada.

Entre 1892 e 1896,durante a administração do jovem maranhense Eduardo Ribeiro,um engenheiro militar,Manaus foi transformada.Foram introduzidos mecanismos legais que visavam a promover um melhor controle do espaço urbano e a nortear a ocupação de novas áreas,garantindo assim os rumos da expansão urbana.

Rua Henrique Martins,Man√°os,1904
Rua Henrique Martins,Man√°os,1904

Reduziu-se a indiscrimina√ß√£o quanto ao que era comum √†s casas de “brancos” e “fuscos”,√† luz do que propunha o novo c√≥digo,evidenciando-se as diferen√ßas sociais,t√£o mais vis√≠veis na √ļltima d√©cada do s√©culo XIX.

O C√≥digo Municipal de Manaus,de 1893,fornece as indica√ß√Ķes de uma cidade pensada como “moderna”.Ela n√£o √© apenas um instrumento de a√ß√£o sobre o espa√ßo;√© tamb√©m um artif√≠cio para a consecu√ß√£o de uma nova sociedade.Por um lado,restringia posturas e h√°bitos indesej√°veis;por outro,estimulava atitudes mais apropriadas a uma “cidade sonhada” e adequada ao “progresso” e √† ordem pretendidos.

Manáos em 1900, rua da Installação
Manáos em 1900, rua da Installação

Os novos bairros previstos eram inteiramente distintos da implanta√ß√£o anterior,pautada numa liga√ß√£o tradicional com o rio.Ruas largas em tra√ßado reto significavam,o mais das vezes,uma atitude de a√ß√£o sobre a natureza,submetendo ao trabalhos de canaliza√ß√£o as √°guas dos igarap√©s que dividiam a antiga cidade.O novo modelo urban√≠stico adotado era baseado num tra√ßado em forma de tabuleiro de xadrez,e as obras,a partir da√≠,fizeram com que as colinas fossem aplainadas,os igarap√©s,aterrados,e as ruas avan√ßassem em dire√ß√£o √† mata.A cidade passou a ter dois patamares: um voltado para o rio e outro que dele se distanciava,incorporando as √°reas de mata ao quadriculado do novo tra√ßado.O eixo principal,inicialmente denominado Avenida do Pal√°cio,quando inaugurado em 1901,recebeu posteriormente o nome de Eduardo Ribeiro,numa homenagem p√≥stuma.Chamado pelos moradores simplesmente de “Avenida”,indicava o centro simb√≥lico da nova cidade ent√£o concebida.

Manaus Antigamente - Avenida Eduardo Ribeiro
Manaus Antigamente – Avenida Eduardo Ribeiro

A Manaus modernizada atendia particularmente ao interesses da burguesia e da elite “tradicional”,vinculada √†s atividades administrativas e burocr√°ticas.Foram implantados v√°rios servi√ßos urbanos: redes de esgoto,ilumina√ß√£o el√©trica,pavimenta√ß√£o das ruas,circula√ß√£o de bondes e o sistema de tel√©grafo subfluvial,que garantia a comunica√ß√£o da capital com os principais centros mundiais de negocia√ß√£o da borracha.

Ponte de ferro, Manaus,1950
Ponte de ferro, Manaus,1950

Muitos dos que foram para o Amazonas da d√©cada final do s√©culo XIX e no in√≠cio do s√©culo XX – estrangeiros ligados √† exporta√ß√£o e √† importa√ß√£o ou funcion√°rios das firmas prestadoras de servi√ßos urbanos e de navega√ß√£o,e,em menor n√ļmero,profissionais liberais – passaram a viver nos novos bairros,nos quais as ruas seguiam o tra√ßado geom√©trico previsto na carta,livre da tirania dos igarap√©s e de aspecto mais salubre que o antigo centro.

Mesmo a construção das casas refletia um estilo de vida distinto,com uma nítida separação entre os locais de moradia e os de trabalho,valorizando-se as residências situadas em amplos terrenos ou chácaras.

Castelinho da Vila Municipal Antigamente
Castelinho da Vila Municipal Antigamente

No estilo das casas e na disposição dos jardins e pomares,expressava-se a diversidade das origens dos que ali passaram a viver: ingleses,americanos,libaneses e,também,exportadores de borracha,médicos brasileiros.A regularidade ou o ponto em comum entre todos esses recém-chegados advinha tanto de sua posição de estrangeiros quanto de seu comportamento mais marcadamente individualista,o que se expressava nos modelos familiares e nas trajetórias dos filhos,comparativamente ao que predominava entre as famílias já estabelecidas.Formava-se um conjunto ruidoso e cosmopolita.

Eduardo Gonçalves Ribeiro
Eduardo Gonçalves Ribeiro

Das iniciativas promovidas por Eduardo Ribeiro depreendem-se as bases de uma significativa altera√ß√£o das representa√ß√Ķes e expectativas em rela√ß√£o √† cidade,considerando-se o que fora,por exemplo,a cidade provincial: ela n√£o √© mais o locus onde se constituir√° a elite,onde se implantar√£o os sinais emblem√°ticos do Imp√©rio.A elite j√° consolidada apropria-se agora da cidade que conquistou como lugar privilegiado de consagra√ß√£o da distin√ß√£o,seja pelo consumo de bens e servi√ßos sofisticados,seja pelo contato e intera√ß√£o com os negociantes da borracha e muitos viajantes que deram seu car√°ter cosmopolita,ou ainda por ser este mais e mais o lugar privilegiado do investimento simb√≥lico de indiv√≠duos que se articulam como grupo.A cidade conquistada enunciava a efetiva viabilidade de civiliza√ß√£o em t√£o remota paragem: homens “civilizados” vivendo numa cidade subtra√≠da √† selva circundante,embelezada e favorecida pelas benesses do consumo e da engenharia urbana desenvolvida por europeus e norte-americanos.A interven√ß√£o urbana promoveu,aos olhos dos que ali viviam,a supera√ß√£o de um atraso hist√≥rico.Gra√ßas √† homogeneidade no estilo,nas fun√ß√Ķes ou nos usos que tiveram os novos espa√ßos,adveio uma representa√ß√£o de ampla e inequ√≠voca aceita√ß√£o para os amazonenses sobre a “Manaus antiga”.Este √© o cen√°rio urbano da “Belle √Čpoque manauara”,por vezes denominado de “Manaus moderna”.

Rua Marechal Deodoro, Manaus Antiga
Rua Marechal Deodoro, Manaus Antiga

As condi√ß√Ķes particulares em que se realizou a belle √©poque na Amaz√īnia apontam para um per√≠odo em que cidades como Manaus e Bel√©m davam provas evidentes de bem-estar,prosperidade e conforto dom√©stico.O crescimento das duas capitais √© sem d√ļvida emblem√°tico do progresso da a√ß√£o controladora do empreendimento civilizador sobre a floresta,como sugeriam ou espelhavam os suntuosos edif√≠cios-monumento,os jardins p√ļblicos,as avenidas e o casario renovado.Antes disso,apesar das expectativas em rela√ß√£o ao uso das riquezas da floresta ou √† possibilidade de explora√ß√£o agr√≠cola da Amaz√īnia,nada houve compar√°vel √† efervesc√™ncia social,√† excita√ß√£o,que a economia da borracha promoveu,expondo de forma in√©dita,nacional e internacionalmente,as sociedade amaz√īnicas.

O Lado Oculto do Fastígio

Hotel Cassina,Manaus
Hotel Cassina,Manaus

Na √ļltima d√©cada do s√©culo XIX,o palco para o vaudeville estava preparado e o cen√°rio pronto.O coronel da borracha,ou seringalista,seria o grande astro dessa com√©dia de boulevard,a grande personagem dessa obra-prima da monocultura brasileira que foi o vaudeville do “ciclo da borracha”.Ele era o patr√£o,o dono e senhor absoluto de seus dom√≠nios,um misto de senhor de engenho e aventureiro vitoriano.O coronel tinha “formas” de agir: era o cavaleiro citadino em Bel√©m ou Manaus e o patriarca feudal no seringal.

O comerciante e seringalista alem√£o Karl Waldemar Scholz
O comerciante e seringalista alem√£o Karl Waldemar Scholz

Mas essa contradição nunca preocupou ninguém.A face oficial do látex era a paisagem urbana,a capital coruscante de luz elétrica,a fortuna de Manaus e Belém,onde imensas somas de dinheiro corriam livremente.O outro lado,o lado terrível,as estradas secretas,estavam bem protegidas,escondidas no infinito emaranhado de rios,longe das capitais.O lado festivo,urbano,civilizado,que procurou esconder as grandes monstruosidades cometidas nos domínios perdidos,poucas vezes foi perturbado durante a sua vigência no poder.Euclides da Cunha foi um pioneiro ao anunciar a estrutura aberrante.Para o pobre imigrante,

“nas paragens exuberantes das h√©veas e castil√īas,o aguarda a mais criminosa organiza√ß√£o do trabalho que ainda engendrou o mais desa√ßamado ego√≠smo”.

Contra essa situação,Euclides da Cunha pede

“urg√™ncia de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esfor√ßo do homem;uma justi√ßa austera que cerceie os desmandos;uma forma qualquer de homestead que o consorcie definitivamente √† terra”.

Euclides da Cunha redescobre o seringueiro explorado:

“(…) s√£o admir√°veis.Vimo-los de perto,conversamo-lo (…) Considerando-os,ou revendo-lhes das musculaturas inteiri√ßas ou a beleza moral das almas varonis que derrotaram o deserto”.

Seringueiro extraindo o L√°tex
Seringueiro extraindo o L√°tex

Com essa visão crítica,Euclides da Cunha passou a ser considerado pelos coronéis como um pobre demente que não sabia o que dizia numa literatura intricada.

Plácido de Castro combatia a monocultura cega da borracha,vislumbrava sua futura decadência e preocupava-se com o sistema retrógrado dos seringais.Ele foi o primeiro a tentar,em suas terras no Acre,uma diversificação agrícola por meio modernos usando adubos e máquinas para melhorar a produção.Pagou com a vida a ousadia de desafiar homens tão poderosos.

O seringueiro,retirante nordestino que fugia da seca e da mis√©ria,era uma esp√©cie de assalariado de um sistema absurdo.Aparentemente era livre,mas a estrutura concentradora do seringal o levava a se tornar um escravo econ√īmico e moral do patr√£o.Endividado,n√£o conseguia mais escapar.Se tentava fugir,isso podia significar a morte ou castigos corporais rigorosos.Definhava no isolamento,degradava-se como ser humano,era mais uma pobre alma do sistema espoliativo do extrativismo.

Enquanto os seringueiros caíam no esquecimento,os coronéis de barranco vibravam com as polacas e francesas,mas as senhoras de respeito eram guardadas nos palacetes,cercadas de criadas e ocupadas com alguns afazeres mesquinhos.

Grafite sobre a Belle √Čpoque em Manaus
Grafite sobre a Belle √Čpoque em Manaus

A Ostentação

A ostentação das cidades de Belém e Manaus impressionava os novos viajantes que nelas chegavam.Jean de Bonefous,viajante francês,dá sua impressão do lado sorridente da sociedade da borracha.Belém pareceu-lhe Bordéus,com

“um movimento de ve√≠culos de toda a sorte,um vai-e-vem cont√≠nuo,que parecia mais um grande centro europeu do que uma cidade tropical”.

Bondinho em Belém
Bondinho em Belém

Sobre Manaus,outro francês,Auguste Plane,emocionava-se com o Teatro Amazonas:

“A constru√ß√£o √© majestosa,quanto ao interior;a sala √© elegante e ricamente decorada.O teto,obra magistral do pintor De Angelis,√© admir√°vel.Bem arejado,bem iluminado,representa uma das curiosidades de Manaus.A mais refinada das civiliza√ß√Ķes chegou at√© o Rio Negro.”

Interior do Sal√£o Nobre do Teatro Amazonas,Manaus
Interior do Sal√£o Nobre do Teatro Amazonas,Manaus

O coronéis enriquecidos receberam de braços abertos os europeus.Afinal,para a administração de seus bens precisavam de pessoal alfabetizado.

“Dominando a sociedade – informa o soci√≥logo Bradford Burns – e as atividades da cidade,encontravam-se os membros da aristocracia brasileira que,ou eram brancos,ou passavam como tal,e uma grande percentagem de estrangeiros”

Bel√©m e Manaus mantiveram uma agitada vida cultural entre os anos de 1890 e 1920.As duas cidades investiram na constru√ß√£o de √≥peras suntuosas,que acolhiam temporadas l√≠ricas anuais.O Teatro da Paz,localizado em Bel√©m,foi concebido na d√©cada de 1860,quando foi lan√ßada sua pedra fundamental,foi inaugurado somente em 1878.Na d√©cada seguinte,o edif√≠cio foi reformado e reinaugurado,incorporando nesta ocasi√£o detalhes arquitet√īnicos que resgataram sua monumentalidade,e ainda os trabalhos de pintores italianos na decora√ß√£o interna.Em 1881,este teatro iniciou sua primeira temporada l√≠rica.

Theatro da Paz, Belém
Theatro da Paz, Belém

O Teatro Amazonas,inaugurado em 1896,custou aos cofres p√ļblicos a quantia de 400.000 libras esterlinas.Na opini√£o do historiador ingl√™s Eric Hobsbawm,o Teatro Amazonas √© uma “catedral caracter√≠stica da cultura burguesa”.Essa descri√ß√£o √© refor√ßada por duas peculiaridades do teatro: sua localiza√ß√£o,em meio √† exuberante floresta equatorial;e sua singular e multicolorida c√ļpula.O Teatro Amazonas foi sem d√ļvidas o grande sal√£o da “Alta sociedade Manauara”.

Teatro Amazonas em 1909
Teatro Amazonas em 1909

A Amaz√īnia produziu escritores como o colombiano Jos√© Eustasio Rivera,autor do romance La Voragine,e brasileiros como Ingl√™s de Sousa,pioneiro do naturalismo,autor de romances como O Coronel Sangrado e o Cacaulista,e poetas como Jonas da Silva,Paulino de Brito e Raimundo Monteiro.No campo dos estudos liter√°rios,√© inquestion√°vel a presen√ßa de Jos√© Ver√≠ssimo,e nos estudos regionais ressaltam os nomes de Domingos Antonio Raiol,Ferreira Pena,Lauro Sodr√© e Sant’Ana Nery.

José Eustasio Rivera
José Eustasio Rivera
Inglês de Sousa
Inglês de Sousa
Bar√£o de Sant'Ana Nery
Bar√£o de Sant’Ana Nery

O poderio econ√īmico da borracha foi capaz de tentar a eleva√ß√£o do n√≠vel educacional,criando no Amazonas a primeira universidade brasileira,a Escola Universit√°ria Livre de Manaus,e de buscar express√£o na mais moderna e dispendiosa forma de arte e seu tempo,o cinema.Com o pioneiro Silvino Santos,imagens da regi√£o foram guardadas para sempre em filmes como “No Paiz das Amazonas” e “No Rastro do Eldorado”.

Silvino Santos
Silvino Santos

FIM

O clima de euforia dura at√© 1910, quando a situa√ß√£o come√ßa a mudar: a partir daquele ano entram no mercado as exporta√ß√Ķes de borracha a partir das col√īnias brit√Ęnicas e o Brasil n√£o suporta a feroz concorr√™ncia que lhe √© imposta. No ano 1913 a produ√ß√£o Inglesa-Mal√°sia superou pela primeira vez a do Brasil. Em seguida muitos seringais foram abandonados e muitos seringueiros voltaram ao nordeste. A Inglaterra havia adquirido cerca de 70.000 sementes do ingl√™s Henry Wickham, em 1876, contrabandeadas, das quais 2.000 haviam florescido. A diferen√ßa t√©cnica de plantio e extra√ß√£o do l√°tex no Brasil e na √Āsia foi determinante para os resultados da explora√ß√£o como neg√≥cio.

Sir Henry Alexander Wickham
Sir Henry Alexander Wickham

As planta√ß√Ķes racionalizadas do Extremo Oriente proporcionaram significativo aumento da produtividade e se tornaram mais competitivas. Enquanto a dist√Ęncia entre as seringueiras na √Āsia era de apenas quatro metros, na Amaz√īnia caminhava-se √†s vezes quil√īmetros entre uma √°rvore e outra, o que prejudicava e encarecia a coleta. No Brasil, o governo resistia a mudar os m√©todos. Acreditava que a explora√ß√£o da maneira que era feita assegurava a presen√ßa de brasileiros e garantia a soberania nacional sobre a despovoada regi√£o amaz√īnica. Privilegiava-se a geopol√≠tica, representada pela ocupa√ß√£o, em detrimento da geoeconomia, que poderia render melhores frutos. Em 1920 os seringais do Oriente produziam 1,5 milh√£o de toneladas de borracha, contra 20 mil toneladas da Amaz√īnia.

*Karl Waldemar Scholz era o antigo dono da residência (majestosa) que atualmente abriga o Centro cultural Palácio Rio Negro,localizado no Centro de Manaus.

FONTES: Breve Hist√≥ria da Amaz√īnia,2¬į Edic√£o,M√°rcio Souza.
A Belle √Čpoque Amaz√īnica,Ana Maria Daou.
A Ilus√£o do Fausto,Edinea Mascarenhas Dias.
O Amazonas na √Čpoca Imperial,Antonio Loureiro.
A Grande Crise,Antonio Loureiro.
Amaz√īnia,natureza,homem e tempo.Leandro Tocantins.

VISITEM:

Historiantes > http://historiainte.blogspot.com.br/2013/06/ciclo-da-borracha-dos-primordios-ate.html

Manaus de Antigamente> https://www.facebook.com/Manausdeantigamente?ref=ts&fref=ts

Centro Histórico de Belém> https://www.facebook.com/CentroHistoricoDeBelem?fref=ts

Belém de Antigamente > https://www.facebook.com/pages/Belem-de-Antigamente/546187685446980?fref=ts

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