Tudo sobre os Povos Indígenas Mura

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Tudo que voc√™ precisa saber sobre os¬† guerreiros mura. Esse povo ind√≠gena empresa seu nome tamb√©m a uma escola de ciranda em Manacapuru (Guerreiros Muras),¬† e v√°rias vezes j√° foram citados em m√ļsicas, principalmente em toadas de boi bumb√° (a que mais curto √© Caprichoso 2000 – Mura , O Pr√≠ncipe das √Āguas).

O¬† “abomin√°vel √≠ndio Mura” ficou conhecido pela violenta belicosidade com que reagiu a coloniza√ß√£o. Constitu√≠ram o paradigma dos √≠ndios b√°rbaros contra os quais se deveria mover a mais enfurecida guerra, como queriam as autoridades na √©poca.

Sua expansão territorial a partir do rio madeira, estendeu-se até a fronteira da Peru até o rio Trombetas no atual estado do Pará.

Ao contr√°rio do que ‚Äúcontam‚ÄĚ muitos livros, os √≠ndios Mura n√£o foram dizimados, n√£o se extinguiram e resistiram contra quem os queriam destruir e contra as doen√ßas que enganaram muitos parentes. O sangue da heran√ßa cultural dessa etnia guerreira e resistente, continua a exaltar-se pelo direito √† terra, nas aldeias ind√≠genas ao redor de Novo C√©u, principalmente no Munic√≠pio de Autazes.

Ciranda Guerreiros Mura de Manacapuru
Ciranda Guerreiros Mura de Manacapuru

Introdução

Os Mura ocupam vastas áreas no complexo hídrico dos rios Madeira, Amazonas e Purus. Vivem tanto em Terras Indígenas, quanto nos centros urbanos regionais, como Manaus, Autazes e Borba. Desde as primeiras notícias do século XVII são descritos como um povo navegante, de ampla mobilidade territorial e exímio conhecimento dos caminhos por entre igarapés, furos, ilhas e lagos. Em seu longo histórico de contato, sofreram diversos estigmas, massacres e perdas demográficas, linguísticas e culturais.

Originariamente falantes de uma l√≠ngua isolada, os Mura passaram a utilizar o Nheengat√ļ (L√≠ngua Geral Amaz√īnica) no interc√Ęmbio com brancos, negros e demais popula√ß√Ķes ind√≠genas. No s√©culo XX, o portugu√™s se tornou a principal l√≠ngua utilizada. No presente, a despeito das mudan√ßas hist√≥ricas, os Mura realizam diversos esfor√ßos para serem plenamente reconhecidos enquanto povo diferenciado.

A luta entre os colonizadores europeus e os índios da região foi encenada pelos cirandeiros Foto: Evandro Seixas
A luta entre os colonizadores europeus e os índios da região foi encenada pelos cirandeiros
Foto: Evandro Seixas

Nome

Falantes da l√≠ngua portuguesa, os Mura conjugam a miscigena√ß√£o e a territorialidade em suas formas atuais de autodenomina√ß√£o. Questionado sobre local do nascimento ou sobre a identidade ind√≠gena, os Mura comumente respondem: ‚Äúsou caboclo leg√≠timo do rio Madeira‚ÄĚ. Por ‚Äúcaboclo leg√≠timo‚ÄĚ buscam esclarecer a condi√ß√£o particular do grupo √©tnico: afirma a determina√ß√£o pol√≠tica de ser Mura a despeito das mudan√ßas hist√≥ricas. Ocorre, assim, a apropria√ß√£o de um termo regional, ‚Äúcaboclo‚ÄĚ, normalmente utilizado com desprezo pelos regionais para definir o √≠ndio ‚Äúimpuro‚ÄĚ, ‚Äúaculturado‚ÄĚ. Positivado pelos √≠ndios, o termo ‚Äúcaboclo‚ÄĚ passa a identificar o que √© ser Mura hoje: √≠ndio misturado, cuja genealogia √© o resultado da incorpora√ß√£o de nordestinos, maranhenses, peruanos e n√£o-√≠ndios em geral, que passaram a compor a etnia atrav√©s de casamentos, a maioria das vezes, com mulheres mura. Por ‚Äúcaboclo‚ÄĚ o Mura alude ao componente biol√≥gico, o sangue ind√≠gena, ainda que misturado; por ‚Äúleg√≠timo‚ÄĚ sinaliza o pertencimento a uma determinada √°rea geogr√°fica; um rio, igap√≥ ou lago, por exemplo. N√£o √© mais ‚Äú√≠ndio puro‚ÄĚ porque viveu o processo civilizat√≥rio com todos seus terr√≠veis matizes do per√≠odo colonial ao presente. Ao se assumirem ‚Äúcaboclos leg√≠timos‚ÄĚ os Mura reafirmam a consci√™ncia do complexo processo hist√≥rico vivido pelo grupo para se manter enquanto tal. A sociedade regional, no entanto, freq√ľentemente questiona se os Mura seriam ‚Äú√≠ndios de verdade‚ÄĚ.

Cacique da etnia Mura (AM) durante reuni√£o para tratar das reivindica√ß√Ķes dos ind√≠genas do Amazonas que havia 15 dias ocupavam a sede da Funda√ß√£o Nacional de Sa√ļde (Funasa) no estado foto : Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Cacique da etnia Mura (AM) durante reuni√£o para tratar das reivindica√ß√Ķes dos ind√≠genas do Amazonas que havia 15 dias ocupavam a sede da Funda√ß√£o Nacional de Sa√ļde (Funasa) no estado
foto : Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Língua

Os Mura dos rios Madeira e Solim√Ķes falavam at√© o in√≠cio do s√©culo XX a l√≠ngua Mura, de um tronco lingu√≠stico isolado. Desde a √©poca da conquista, estes √≠ndios passaram a utilizar tamb√©m a l√≠ngua geral (ou Nheengatu), que gradativamente foi sendo substitu√≠da pelo portugu√™s.

Em 1826 um observador an√īnimo deixou registrado que os Mura da embocadura do Madeira falavam ‚Äúa l√≠ngua geral al√©m das suas tr√™s g√≠rias – a articular nasal, a gutural e a da gaita‚ÄĚ (C. Moreira Neto, 1988: 358). Situa√ß√£o lingu√≠stica semelhante foi descrita por Barbosa Rodrigues (1975) no rio Urubu; Tastevin (1923) nas proximidades de Manaus; e Nimuendaj√ļ, em rela√ß√£o aos Mura dos rios Madeira e Solim√Ķes.

O Apaitsiiso, l√≠ngua falada pelos Pirah√£, atuais habitantes dos rios Marmelos e Maici, classificados por Nimuendaju (1946) como um sub-grupo Mura, possui estas mesmas caracter√≠sticas. Os estudos de Henrichs (1964), Everett (1978, 1983) e Gon√ßalves (1988, 2001) a descrevem como uma l√≠ngua tonal, na qual significados s√£o estabelecidos eminentemente a partir de rela√ß√Ķes de tons. Por meio de assovios e gritos, por exemplo, os falantes s√£o capazes de gerar uma modalidade de comunica√ß√£o espec√≠fica, especialmente eficaz para conversas a longas dist√Ęncias.

A l√≠ngua geral, arquitetada pelos jesu√≠tas a partir das l√≠nguas Tupi-Guarani da costa, foi at√© a expuls√£o dos jesu√≠tas e a cria√ß√£o do governo laico do Diret√≥rio Pombalino (1755), a l√≠ngua oficial da col√īnia no Gr√£o-Par√°, imposta a todos os nativos nas miss√Ķes, nas rela√ß√Ķes comerciais e nos esfor√ßos de disciplinariza√ß√£o para o trabalho. At√© o s√©culo XIX, os Mura a utilizavam amplamente na comunica√ß√£o com colonos, mission√°rios, escravos negros e outros povos ind√≠genas. Isto, entretanto, n√£o quer dizer que houvessem abandonado a l√≠ngua Mura. No s√©culo XX, o Nheengatu perdeu para o Portugu√™s o papel de l√≠ngua franca intercultural.

Atualmente, os Mura, falantes de Portugu√™s, assim como outros povos amaz√īnicos que perderam suas l√≠nguas maternas, reafirmam o Nheenhatu como uma l√≠ngua ind√≠gena. Em diversos casos os Mura associam termos e locu√ß√Ķes em l√≠ngua geral falada pelos mais velhos √† pr√≥pria l√≠ngua Mura.

No presente, os Mura v√™m realizando esfor√ßos de valoriza√ß√£o e resgate lingu√≠stico e cultural das diversas ‚Äúg√≠rias‚ÄĚ da l√≠ngua Mura.

Acervo: M√°rio de Andrade No. de Tombo: MA-0640 T√≠tulo: Duas cabe√ßas ind√≠genas: Mura e Jumana T√©cnica: litografia colorida s/ papel Ano: s√©c XIX Dimens√Ķes: 49 cm x 65.2 cm
Acervo: M√°rio de Andrade
No. de Tombo: MA-0640
Título: Duas cabeças indígenas: Mura e Jumana
Técnica: litografia colorida s/ papel
Ano: séc XIX
Dimens√Ķes: 49 cm x 65.2 cm

Localização

As fontes hist√≥ricas dos s√©culos XVIII e XIX apontam a presen√ßa dos Mura em vastas e diversas regi√Ķes da Amaz√īnia oriental. A abrang√™ncia de sua ocupa√ß√£o territorial e a densidade populacional do grupo foram abordados pioneiramente por Nimuendaj√ļ (1948). A partir do s√©culo XVII, os Mura teriam migrado da fronteira com o Peru (regi√£o de Loreto) para diversas regi√Ķes dos complexos h√≠dricos dos rios Japur√°, Solim√Ķes, Madeira, Negro e mesmo Trombetas (regi√£o de Oriximin√°). A esta √°rea de ocupa√ß√£o corresponderia uma popula√ß√£o estimada entre em 60.000 e 30.000 pessoas. Neste per√≠odo, a a√ß√£o das tropas de resgate e das miss√Ķes ocasionou a fragiliza√ß√£o e depopula√ß√£o de diversas etnias que ocupavam tais regi√Ķes, o que para muitos, acabou por beneficiar o crescimento populacional e a expans√£o mura para o leste. Nos s√©culos XVIII e XIX, a despeito de terem sofrido diversos ataques empreendidos pela col√īnia, os Mura mantiveram extensas posi√ß√Ķes no complexo h√≠drico dos rios Madeira, Solim√Ķes e Purus.

Atualmente, os Mura continuam a ocupar largas por√ß√Ķes territoriais nestas mesmas regi√Ķes h√≠dricas. Encontram-se dispersos em mais de 40 Terras Ind√≠genas, em diferentes est√°gios de regulariza√ß√£o fundi√°ria, distribu√≠das pelos munic√≠pios de Alvar√£es, Anori/Beruri, Autazes, Borba, Carceiro da V√°rzea, Novo Aripuan√£, Itacoatiara, Manaquiri, Manicor√© e Uarini; todos situados no Estado do Amazonas, sobretudo nas regi√Ķes de interfl√ļvio dos rios Madeira e Purus. Nos centros urbanos, tais como a capital estadual Manaus e as sedes dos munic√≠pios habitados, registra-se a exist√™ncia de bairros quase exclusivamente ocupados por segmentos populacionais mura, que mant√©m estreitos v√≠nculos com os moradores das aldeias situadas nas TIs.

Os muras eram n√īmades
Os muras eram n√īmades

 

População

Devido √† ampla mobilidade e dispers√£o dos Mura em um vasto territ√≥rio, as contagens populacionais globais s√£o altamente imprecisas e dif√≠ceis de serem realizadas. A reuni√£o dos levantamentos publicados pela Funai, produzidos no √Ęmbito dos processos de regulariza√ß√£o fundi√°ria, conduzidos entre 1991 e 2008, apontam para uma popula√ß√£o aproximada de 9.300 pessoas habitantes de Terras Ind√≠genas.

Este c√īmputo, entretanto, n√£o incorpora a popula√ß√£o de aldeias e Terras Ind√≠genas cujos processos demarcat√≥rios ainda n√£o foram conclu√≠dos, nem sequer os habitantes de centros urbanos, o que vem a dificultar, ou mesmo impedir, o planejamento de pol√≠ticas p√ļblicas adequadas de atendimento √† popula√ß√£o mura, tanto nas aldeias quanto nas cidades.

Crianças Muras Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008
Crianças Muras
Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008

Histórico do contato

A presen√ßa mura no sistema hidrogr√°fico do rio Madeira √© documentada desde in√≠cio do s√©culo XVIII. As primeiras not√≠cias coloniais d√£o conta de uma popula√ß√£o de navegantes, com total dom√≠nio dos intrincados caminhos fluviais e das artes de subsist√™ncia nos rios e lagos, que vivia embarcada durante as cheias e acampada em jiraus e tapiris ‚Äď habita√ß√Ķes provis√≥rias de palha ‚Äď constru√≠dos nas praias durante o ver√£o. Nas raras descri√ß√Ķes da √©poca, estas caracter√≠sticas eram associadas √† aus√™ncia; eram tidos como povos sem religi√£o, sem lei, sem agricultura, sem aldeias e sem cultura material.

Apenas no fim do s√©culo XX, com o fortalecimento da etnologia das terras baixas sul-americanas, tais vis√Ķes foram questionadas. Em pesquisa sobre os Mura-Pirah√£, Marco Antonio Gon√ßalves (1988, 1990, 1993) interpretou tais ‚Äúaus√™ncias‚ÄĚ como a express√£o de um padr√£o cultural minimalista, que encontra na descartabilidade o principal elemento de sua filosofia de vida.
Fonte: Biblioteca Nacional (Brasil), Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira
Fonte: Biblioteca Nacional (Brasil), Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira

A construção do inimigo mura

Os Mura acumulam uma longa hist√≥ria de contato com a sociedade envolvente. Desde tempos remotos, colonos e mission√°rios cat√≥licos constru√≠ram e disseminaram fortes estigmas contra tal povo, a ponto de recusar-lhes at√© mesmo a condi√ß√£o de seres humanos. Em meados de 1714 foram realizadas as primeiras e totalmente frustradas tentativas de redu√ß√£o dos Mura aos aldeamentos da Companhia de Jesus na regi√£o do Madeira. Desde ent√£o, foram vistos como amea√ßas aos estabelecimentos implantados na regi√£o junto a outros povos, devido aos frequentes ataques contra tais n√ļcleos, bem como contra as embarca√ß√Ķes comerciais que atuavam nos cacauais nativos do rio Madeira. A hist√≥ria da Vila de Trocano, nome colonial de Borba, a primeira vila da Amaz√īnia, ilustra este per√≠odo: acossados pelos Mura, os jesu√≠tas transferiram Trocano de lugar cinco vezes (Ferrari, 1981).
Tais situa√ß√Ķes e vis√Ķes passaram a fundamentar tanto a pr√°xis da viol√™ncia quanto as leis de exce√ß√£o para com os Mura. As primeiras den√ļncias contra tais povos se deram na fase de hegemonia da Junta das Miss√Ķes, entidade com atribui√ß√Ķes jur√≠dicas, formada pelas ordens religiosas cat√≥licas atuantes no Gr√£o-Par√° at√© 1755. Algumas dessas ordens tinham comprovado interesse mercantil no rio Madeira. Os jesu√≠tas, por exemplo, exploravam os seus cacauais nativos (Azevedo, 1919) e de tal ind√ļstria extrativa efetuavam um volume significativo de exporta√ß√Ķes. Para esses empreendimentos, a presen√ßa mura √†s margens do rio Madeira representava uma amea√ßa que deveria ser combatida.
Este √© o cen√°rio no qual se germinou a cria√ß√£o dos Autos da Devassa contra os √ćndios Mura do rio Madeira (1738-1739), que consistia em uma a√ß√£o judicial movida pelas ordens religiosas que atuavam na regi√£o do Madeira. A partir de ent√£o, os Mura passaram a figurar como inimigos oficiais da Igreja e da Coroa portuguesa, pass√≠veis de serem mortos e escravizados. Durante todo o s√©culo XVIII, os documentos sobre os Mura posteriores √† Devassa repetiam e refor√ßavam imagens fortemente pejorativas. Os registros hist√≥ricos d√£o conta de ‚Äúpopula√ß√Ķes selvagens, trat√°veis apenas atrav√©s da guerra e do exterm√≠nio‚ÄĚ.
Posto no Lago da Josefa. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Posto no Lago da Josefa. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Tais documentos, entretanto, quando investigados criticamente, apresentam inconsist√™ncias e contradi√ß√Ķes flagrantes. O caso da ‚ÄúMem√≥ria do Gentio Mura‚ÄĚ, compilada por Alexandre Rodrigues Ferreira, √© not√°vel. Este texto, que serviu de base para a declara√ß√£o de guerra da Coroa Portuguesa contra os Mura, foi escrito em Bel√©m, sem ter o autor sequer iniciado sua famosa jornada pela Amaz√īnia, descrita na Viagem Filos√≥fica. A base da den√ļncia contra os Mura e da descri√ß√£o das suas t√©cnicas de guerra era liter√°ria; o autor atribui aos Mura caracter√≠sticas guerreiras dos Tupi da costa, que conhecera atrav√©s da leitura de cr√īnicas e relatos de viagens. Em 1757, quando da funda√ß√£o do Diret√≥rio Pombalino que garantia liberdade formal aos √≠ndios, os Mura continuaram a ser uma exce√ß√£o, uma vez que considerados inimigos oficiais da Coroa.¬† A Carta R√©gia de 1798 tamb√©m excluiu os Mura dos benef√≠cios da Lei. Juntamente com os Karaj√° e os Munduruku, figuravam como ‚Äúexce√ß√Ķes de liberdade‚ÄĚ. Uma vez que inimigos irreconcili√°veis da Coroa, a escravid√£o imputada contra essas popula√ß√Ķes sempre foi uma empresa aceita e oficializada.Data de meados 1784 a cria√ß√£o dos primeiros aldeamentos leigos de √≠ndios Mura ‚Äúpacificados‚ÄĚ. Estes aldeamentos eram freq√ľentados pelos Mura na √©poca da colheita das ro√ßas. O resto do tempo a popula√ß√£o mantinha h√°bitos tradicionais de pesca, ca√ßa e coleta, utilizando para tanto os furos e igarap√©s do sistema hidrogr√°fico do rio Madeira.¬† Embora discut√≠veis do ponto de vista da efic√°cia da sedentariza√ß√£o da popula√ß√£o que diziam abrigar, estes aldeamentos marcaram, no entanto, uma nova fase de conviv√™ncia destes grupos nativos com a col√īnia.
Do ponto de vista da popula√ß√£o ind√≠gena, o que ocorreu foi um gradativo abandono das vias principais dos rios Madeira e Solim√Ķes pela regi√£o dos rios e lagos daquele sistema hidrogr√°fico. Com isso ficava garantida prote√ß√£o e farta subsist√™ncia para in√ļmeros grupos que pontilhavam as margens dos rios, lagos, igarap√©s, ocupando de forma extensiva e pouco densa um territ√≥rio de vastas dimens√Ķes. Os Mura detinham o conhecimento sobre caminhos indevass√°veis ao colonizador portugu√™s; deste modo, sua presen√ßa era registrada tanto na vila colonial de Borba, quanto nos rios Japur√°, Purus, Solim√Ķes e Negro. A imagem do ‚ÄúMura Agigantado‚ÄĚ que consta do poema arc√°dico de Wilckens se originou neste contexto, no qual o colonizador, perplexo diante de tamanha mobilidade, passou a temer a floresta tropical por identific√°-la com a ‚Äúmorada do gentio mura‚ÄĚ.

O Mura Agigantado

O territ√≥rio imenso ocupado pelos Mura √© um tema recorrente na hist√≥ria colonial da Amaz√īnia; ao qual se associou o temor de um levante generalizado de tal povo contra a coloniza√ß√£o. Para a maioria dos autores, isso explica as diversas a√ß√Ķes militares movidas contra o grupo ocorridas a partir de meados de 1774. Em diversos contextos, os colonizadores retomavam os argumentos dos Autos da Devassa e exigiam o completo exterm√≠nio deste povo para evitar a ru√≠na da ‚Äúciviliza√ß√£o‚ÄĚ na Amaz√īnia.

Neste contexto, √© not√°vel que as pr√≥prias caracter√≠sticas de suas formas de territorialidade e de sua organiza√ß√£o social ‚Äď e n√£o atos atrozes de viol√™ncia ‚Äď colaboraram para a constru√ß√£o da figura pejorativa do ‚Äúinimigo mura‚ÄĚ. Por um lado, a col√īnia pretendia combater sua extrema mobilidade territorial e avers√£o √† sedentariza√ß√£o, que lhes permitia expandir cada vez mais suas √°reas de ocupa√ß√£o. Por outro, visava-se combater a ‚Äúmurifica√ß√£o‚ÄĚ, que se consistia na pr√°tica de agregar aos seus pr√≥prios grupos diversos elementos fugidos das miss√Ķes e vilas coloniais; tais como negros, brancos pobres e √≠ndios desterrados de diversas origens √©tnicas.

Os Mura e a cabanagem (século XIX)

Extraído de SPIX & MARTIUS. 1981. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia, EDUSP. (Volume 3)
Extraído de SPIX & MARTIUS. 1981. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia, EDUSP. (Volume 3)

No s√©culo XIX, os Mura tiveram presen√ßa marcante nos confrontos armados da cabanagem (1835-1840), ocorridos em todo o territ√≥rio da Amaz√īnia brasileira. √Ä √©poca, a forte presen√ßa dos Mura no complexo h√≠drico dos rios Madeira e Solim√Ķes foi atestada pela pr√≥pria documenta√ß√£o da repress√£o, que atuou intensamente na regi√£o entre 1836 ‚Äď quando da retomada legalista de Bel√©m e intensifica√ß√£o dos combates ao interior ‚Äď at√© meados de 1840, quando os confrontos foram dados por finalizados pelo presidente da prov√≠ncia com a rendi√ß√£o de aproximadamente 800 rebeldes na regi√£o de¬† Mau√©s, situada na regi√£o da ilha de Tupinambarana (curso do rio Amazonas), no interfl√ļvio Madeira-Tapaj√≥s.

Assim como os demais contr√°rios da ‚Äúlegalidade do Imp√©rio‚ÄĚ, os Mura eram identificados de modo gen√©rico como ‚Äúcabanos‚ÄĚ, inimigos dos ‚Äúhomens de bem, da civiliza√ß√£o e da humanidade‚ÄĚ, pass√≠veis de serem legalmente exterminados, escravizados (remetidos a corpos militares de trabalhadores) ou desterrados da prov√≠ncia para outras regi√Ķes do Imp√©rio (Moreira Neto, 1988; Mahalem de Lima, 2008).Pesquisa recente sobre a mem√≥ria dos Mura de Autazes sobre a cabanagem apresenta outras vers√Ķes. Na mem√≥ria dos mais idosos das aldeias de Autazes tratou-se de uma guerra contra os Mura. Em suas narrativas, os cabanos n√£o seriam eles pr√≥prios ou aqueles aos quais se aliaram, mas sim os portugueses, os militares e soldados ligados √†s for√ßas legalistas, bem como as popula√ß√Ķes ind√≠genas dos rios Tapaj√≥s (Munduruku) e Negro, que se aliaram a eles (Castro Pereira, 2009).
A repress√£o militar aos cabanos marca uma das mais dram√°ticas p√°ginas da hist√≥ria da Amaz√īnia. Al√©m dos processos de desterro e escraviza√ß√£o, estima-se a morte de 40.000 de pessoas (ou aproximadamente um ter√ßo da incerta popula√ß√£o amaz√īnida da √©poca).
Vencidos em mais uma guerra e novamente alvo de programas de ‚Äúpacifica√ß√£o‚ÄĚ, os Mura foram descritos pelos viajantes do s√©culo XIX, tais como Spix & Martius (1976 [1823]) e Coutinho (1861), na condi√ß√£o de nativos corrompidos pelo contato, ‚Äúaculturados‚ÄĚ, viciosos, que se empregava na pesca e ca√ßa de animais aqu√°ticos em troca de cacha√ßa. Eram, enfim, tidos como uma popula√ß√£o decadente e altamente primitiva. Nota-se, entretanto, que embora derrotados em combates e fortemente estigmatizados pela vis√£o do colonizador, os Mura continuaram a ser a principal e mais numerosa popula√ß√£o do sistema hidrogr√°fico do rio Madeira.

Os Mura e a atua√ß√£o do Servi√ßo de Prote√ß√£o aos √ćndios – SPI

O SPI se fez presente nas terras mura do município de Borba desde as primeiras décadas do século XX, quando se iniciaram os trabalhos de demarcação de suas terras. Em 1917, o Governo do Estado do Amazonas, autorizou a concessão de lotes de terra à população indígena, o que moveu o SPI a demarcar lotes destinados aos Mura nos municípios de Manicoré, Careiro, Itacoatiara e Borba.
A concess√£o de pequenos lotes de terra e a concentra√ß√£o da popula√ß√£o mura em aldeias, tal como a situa√ß√£o atual, foi fato historicamente constitu√≠do neste contexto e data provavelmente das duas primeiras d√©cadas do s√©culo XX. A medida visava, ao mesmo tempo, racionalizar o uso de um vasto territ√≥rio e da m√£o de obra ind√≠gena, concentrando os √≠ndios em lotes devidamente demarcados e liberando para a popula√ß√£o n√£o-√≠ndia o restante da √°rea. Criava-se, deste modo, em um territ√≥rio tradicional dos Mura dois estatutos diferenciados de uso da terra: a terra dos √≠ndios, configurando √°rea federal, ‚Äúda na√ß√£o‚ÄĚ, sendo seus habitantes tutelados pelo SPI; e a terra dos ‚Äúcivilizados‚ÄĚ, de jurisdi√ß√£o municipal.
Posto no Lago da Josefa. Grupo de índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).
Posto no Lago da Josefa. Grupo de índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).

As fontes históricas apontam para diversos conflitos de interesse entre os agentes do SPI e os Mura. Nimuendaju, que esteve em Borba em 1926, refere-se à morte de um funcionário do SPI em Sapucaioroca e Vista Alegre, acusado pelos Mura de estar demarcando terras dos índios para particulares.

No Juta√≠ do Igap√≥-A√ß√ļ, a Inspetoria do SPI mantinha um delegado, Sr. Odorico Ferreira Chaves, que aparece na documenta√ß√£o como uma lideran√ßa n√£o-√≠ndia instalada na aldeia com a fun√ß√£o de explorar o trabalho dos √≠ndios e organizar a comercializa√ß√£o da castanha. O funcion√°rio do SPI, tal como em outras regi√Ķes da Amaz√īnia, fazia as vezes do ‚Äúpatr√£o‚ÄĚ dos seringais, cargo muitas vezes ocupado pela pol√≠cia local.

Os Mura e a atua√ß√£o da Funda√ß√£o Nacional do √ćndio (FUNAI)

A pol√≠tica de arrendamentos no per√≠odo do SPI explica em parte o fen√īmeno migrat√≥rio dos Mura em dire√ß√£o aos centros urbanos da regi√£o. Um levantamento mais sistem√°tico das correntes migrat√≥rias da popula√ß√£o ind√≠gena em dire√ß√£o aos bairros Mura de Borba e Autazes poderia esclarecer este epis√≥dio recente da hist√≥ria dos Mura, assim como elucidar os mecanismos de atua√ß√£o de pol√≠ticas indigenistas que impeliram o grupo ao desaldeamento e √† concentra√ß√£o urbana em bairros habitados exclusivamente pelos Mura.

Posto do Capivara, no rio Autaz-Ass√ļ - Habita√ß√£o dos √≠ndios Mura. Fonte: Autos da Comiss√£o de Inqu√©rito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, S√©rie Procuradoria (n. 640, vol. IV, dep√≥sito 311).
Posto do Capivara, no rio Autaz-Ass√ļ – Habita√ß√£o dos √≠ndios Mura. Fonte: Autos da Comiss√£o de Inqu√©rito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, S√©rie Procuradoria (n. 640, vol. IV, dep√≥sito 311).

A retomada pelos Mura ‚Äď e o reconhecimento oficial ‚Äď de seus territ√≥rios tradicionais √© um fen√īmeno recente em sua hist√≥ria. Este processo de reocupa√ß√£o e reorganiza√ß√£o das aldeias se iniciou em meados dos anos 1970 e foi respaldado na d√©cada seguinte pelas mobiliza√ß√Ķes das organiza√ß√Ķes ind√≠genas da Amaz√īnia em torno da quest√£o da terra. Os Mura participaram desde os primeiros anos de forma√ß√£o da COIAB (Coordena√ß√£o das Organiza√ß√Ķes Ind√≠genas Brasileiras), por meio de lideran√ßas que fundaram o CIM (Conselho Ind√≠gena Mura).

Em 1987, a Funai voltava sua aten√ß√£o para os Mura, mais exatamente para o territ√≥rio de Cunh√£-Sapucaia e Juta√≠, √°reas de interesse da Petrobr√°s, que pretendia realizar pesquisa e posteriormente lavra de petr√≥leo e gases raros nas Terras Ind√≠genas do rio Preto do Igap√≥-A√ß√ļ. O trabalho de pesquisa consistia na abertura de picadas e duas linhas s√≠smicas em um territ√≥rio que, presumira-se em Bras√≠lia, n√£o ser de ocupa√ß√£o do grupo. Com o in√≠cio dos trabalhos, as autoridades e pesquisadores constataram que a √°rea de interesse da Petrobr√°s incidia em territ√≥rio de ocupa√ß√£o dos Mura. Em seus relat√≥rios, registravam, com certa surpresa, que os Mura surgiam de dentro da floresta e reivindicavam aquele territ√≥rio para si.
Esquecidos ou espoliados pelo poder tutelar desde meados do s√©culo XX, os Mura viam-se diante de um evento global de dimens√Ķes in√©ditas, que prometia mudan√ßas radicais no seio de sua sociedade. Acenava-se com o dinheiro das indeniza√ß√Ķes para os √≠ndios; al√©m disso, oferecia-se aos Mura a possibilidade de engajamento nas frentes de trabalho, e franqueava-se a eles brindes, cestas b√°sicas, utens√≠lios, bem como a possibilidade de conv√≠vio com um aparato tecnol√≥gico cinematogr√°fico.
Ficou acertado, por interm√©dio da Funai, o pagamento de indeniza√ß√Ķes devidas aos √≠ndios. Parte deste dinheiro foi pago ao l√≠der Sapucaia, eleito representante da popula√ß√£o Mura. O restante do valor foi depositado em uma Caderneta de Poupan√ßa e acabou confiscado pelo governo por ocasi√£o das mudan√ßas econ√īmicas da administra√ß√£o Collor.
Se frustrante do ponto de vista monet√°rio, o evento provocado pela pesquisa de petr√≥leo teve efeitos not√°veis. Mobilizou mais uma vez os Mura na defesa de seus territ√≥rios e lan√ßou os l√≠deres que participaram das negocia√ß√Ķes em outra esfera pol√≠tica, que articulava a din√Ęmica da vida local diretamente com Bras√≠lia.

Organização social e política

A extensiva presen√ßa dos Mura no sistema hidrogr√°fico do rio Madeira confirma um padr√£o de moradia que d√° prefer√™ncia ao habitar ribeirinho, garantia de subsist√™ncia e da mobilidade dos segmentos de grupos. Os depoimentos dos moradores sobre o padr√£o de moradia no in√≠cio do s√©culo desenham uma ocupa√ß√£o dispersa dos n√ļcleos familiares pela vasta √°rea dos lagos e igarap√©s. A concentra√ß√£o da popula√ß√£o mura em aldeias, tal como se apresenta hoje, foi fato historicamente constitu√≠do por interven√ß√£o do SPI e data provavelmente das duas primeiras d√©cadas do s√©culo XX.

A op√ß√£o de moradia dos Mura junto aos lagos √© um tra√ßo cultural tradicional, que tamb√©m esteve condicionado a injun√ß√Ķes hist√≥ricas. Originalmente, estes ex√≠mios pescadores e navegadores do Madeira encontravam farta provis√£o nos lagos e furos, de onde provinha o abastecimento de peixes e tartarugas. Raz√Ķes hist√≥ricas elencadas nos itens anteriores, que envolvem a escravid√£o e o exterm√≠nio, levaram os Mura a buscar ref√ļgio e prote√ß√£o nos lagos e igarap√©s distantes das grandes vias de comunica√ß√£o fluvial, onde a col√īnia marcava presen√ßa cada vez mais ostensiva e opressiva frente aos nativos da regi√£o.

Organização social e política do indios mura Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008
Organização social e política do indios mura
Divulgação : Prêmio Culturas Indígenas 2008.

As aldeias mura contempor√Ęneas caracterizam-se por um conjunto de habita√ß√Ķes que n√£o ultrapassa trinta unidades residenciais, dispostas nas terras altas ao longo dos lagos ou dos igarap√©s principais. A vida √ļtil de uma aldeia mura √© relativamente pequena: novos n√ļcleos de povoa√ß√£o do territ√≥rio substituem as aldeias antigas, que s√£o abandonadas at√© nova ocupa√ß√£o. Ao longo da vida, um indiv√≠duo mura chega a construir mais de dez casas em um mesmo territ√≥rio de ocupa√ß√£o.

O tipo de casa utilizado pelos Mura pouco se difere do padr√£o das constru√ß√Ķes ribeirinhas da Amaz√īnia: s√£o casas de piso de terra batida ou assoalho de madeira, paredes de palha ou madeira e cobertura de palha. A cozinha fica deslocada do dormit√≥rio, e mant√©m um fog√£o a lenha, sempre ativo, potes de √°gua e alguns poucos utens√≠lios. As habita√ß√Ķes, em geral, formam conjuntos segmentares que desenham unidades familiares em torno de um n√ļcleo formado pelas mulheres mais velhas da aldeia.
O grau de proximidade e troca entre os moradores e as aldeias mura √© determinado por afinidades baseadas no parentesco e na vida pol√≠tica. Os arranjos pol√≠ticos envolvem na maioria das vezes acordos no aproveitamento dos recursos naturais de √°rea mantida sob a influ√™ncia das lideran√ßas das aldeias principais. A mobilidade mura, deste modo, n√£o deve ser confundida com o uso desregrado de uma territorialidade gen√©rica e indeterminada.Ao contr√°rio do isolamento, os Mura est√£o envolvidos em amplas redes de rela√ß√Ķes multilocais que extrapolam os limites da aldeia e da Terra Ind√≠gena. Participam desta rede n√£o apenas os moradores das comunidades mura, como tamb√©m os parentes que vivem nos munic√≠pios da regi√£o, tais como Itacoatiara, Borba, Autazes e inclusive Manaus.

Atividades Produtivas

A economia dos Mura, embora orientada para subsist√™ncia, √© marcada, em diferentes graus, por atividades de trabalho e com√©rcio mais amplas: venda de farinha, participa√ß√£o nos empreendimentos realizados por barcos pesqueiros ou de ecoturismo, bem como extra√ß√£o de madeira e palha para a comercializa√ß√£o nas cidades. Tais atividades ocupam de forma variada a popula√ß√£o das aldeias. Diferentes comunidades formam diferentes perfis econ√īmicos, num gradiente que vai daquelas mais voltadas √† atividade de extra√ß√£o e comercializa√ß√£o da madeira, √†quelas mais voltadas √†s atividades agr√≠colas e comercializa√ß√£o das frutas regionais. De modo geral, as aldeias mura forneceram tripulantes para as embarca√ß√Ķes ou pescadores para os barcos de pesca comercial e turismo ecol√≥gico.

Em sua hist√≥ria recente de contato com a sociedade nacional, os Mura protagonizaram o papel do trabalhador semi-escravo, que vende sua for√ßa de trabalho e a terra em troca de assist√™ncia √† sa√ļde e mercadorias manufaturadas, em uma s√©rie de ciclos econ√īmicos que marcaram toda a Amaz√īnia. O tipo de rela√ß√£o de trabalho que se imp√īs historicamente aos Mura, distante do assistencialismo e da tutela do governo federal e totalmente √† merc√™ da explora√ß√£o inescrupulosa dos patr√Ķes e regat√Ķes, passa, no final do s√©culo XX, a se reproduzir internamente nos relacionamentos que se d√£o entre as lideran√ßas e as comunidades mura.

Na divis√£o do trabalho, os homens ca√ßam pescam e abrem o terreno para as ro√ßas novas e para a amplia√ß√£o das planta√ß√Ķes. Crian√ßas e mulheres abastecem de peixe as refei√ß√Ķes di√°rias, que podem ser intercaladas por carne de ca√ßa eventualmente obtida pelos homens. Os meninos se iniciam muito cedo nas ca√ßadas na TI Cunha-Sapucaia, acompanhando os pais nas trilhas de ca√ßa que s√£o do dom√≠nio de cada fam√≠lia.

√ćndios Mura retratados por George Catlin
√ćndios Mura retratados por George Catlin

Nas comunidades mais voltadas para as atividades madeireiras, são os homens que penetram na mata em busca da madeira sendo, no entanto, auxiliados pelos jovens e crianças, que auxiliam de maneira geral as demais tarefas. As mulheres são responsáveis por cuidar das roças. Toda a comunidade participa da colheita de castanha-do-pará. Para a comercialização do excedente, seguem a divisão por unidades familiares.

Os Mura combinam atividades de naturezas diversas para garantir seu sustento. A base alimentar √© o pescado, encontrado com facilidade nos igarap√©s e rios da regi√£o, que √© consumido assado ou cozido com a farinha de mandioca, produzida por cada unidade familiar, em casas de farinha comunit√°rias (geralmente de propriedade de uma fam√≠lia extensa). Consomem ainda caf√©, a√ß√ļcar, arroz, macarr√£o, sal e bolachas, itens adquiridos na cidade. Tamb√©m s√£o adquiridos medicamentos, roupas, o combust√≠vel e ferramentas.

As roças mura, em geral, são replantadas em local diferente do anterior a cada dois ciclos de colheita. Os derivados de mandioca são amplamente consumidos durante o ano todo. As aldeias possuem ao menos um equipamento para a produção da farinha, embora o desejado seja que cada família extensa possua sua própria casa de farinha. Em suas roças, plantam diversos tipos de mandioca, bem como outras raízes e tubérculos que equilibram e completam com nutrientes necessários a sua dieta alimentar.

Os Mura são hábeis pescadores e caçadores. Apreciam os peixes Рjaraqui, a traíra, o tucunaré, o matrinxã Рe carnes de caça, tais como: anta, veado, porco caititu, macaco prego, guariba, jaboti, queixada, cotia, mutum e aracuã. Tais atividades são praticadas em moldes tradicionais, mas não deixam de fazer uso de tecnologias incorporadas dos regionais. A pesca é feita com flecha, zagaia e anzol. Na caça utilizam cachorros. Apenas alguns moradores possuem espingarda.

A coleta de variados tipos de castanha destaca-se como uma das principais atividades de todas as comunidades. S√£o muito apreciadas e completam sua dieta alimentar, juntamente com as diversas frutas encontradas na regi√£o, tais como, a√ßa√≠, amap√°, baba√ßu, bacaba, buriti, piqui√°, tucum√£, uixi; bem como as frutas de casa plantadas nas proximidades das habita√ß√Ķes, como abacate, abacaxi, acerola, banana, cacau, caf√©, caju, cana, carambola, coco, cupua√ß√ļ, goiaba, jaca, jambo, jenipapo, juta√≠, laranja, lima, lim√£o, mam√£o, manga, maracuj√°, pupunha e melancia.

A atividade extrativa constitui uma pr√°tica tradicional dos Mura, que antecede e supera em import√Ęncia a agricultura. Foi com a coleta e venda da castanha-do-par√° que os Mura desenvolveram os mecanismos para lidar com o mercado de consumo. A experi√™ncia adquirida √© empregada na venda da madeira, produto mais requerido pelo mercado local. Com decad√™ncia da era da castanha-do-par√°, registrou-se o crescimento das atividades madeireiras e pastoris ao longo de toda a regi√£o.

Alegando uma baixa produtividade dos castanhais da regi√£o, os Mura vem gradativamente complementando sua oferta de castanha-do-par√° ao mercado regional com outros produtos, dentre os quais a madeira √© o que obt√©m aceita√ß√£o certa e melhor pre√ßo. O extrativismo envolve uma s√©rie de agentes que participam da vida do grupo social e s√£o elementos importantes para compreendermos a din√Ęmica destas sociedades. Tais mecanismos consistiam, antes da homologa√ß√£o das Terras Ind√≠genas Mura, na alian√ßa com um ou mais barcos de regat√Ķes, com os quais selavam pactos de exclusividade de com√©rcio.

 

Resumo

Os Muras eram uma tribo abor√≠gine que habitou no per√≠odo do Brasil Col√īnia todo territ√≥rio que compreende as bacias hidrogr√°ficas dos rios Amazonas, Madeira e Solim√Ķes. Sua hostilidade era conhecida pelos brancos, uma vez que evitavam contatos com a civiliza√ß√£o. Muras e portugueses se confrontaram em decorr√™ncia da invas√£o colonial, pelo o fato do rio madeira ser o √ļnico caminho para os comerciantes portugueses chegarem a Vila Bela, antiga cidade de Mato Grosso. A aldeia Mura n√£o permitia a ultrapassagem do rio levando os negociantes a enormes preju√≠zos atacando, sobretudo, os barcos que transportavam especiarias.

Os comerciantes lusitanos coagiram o capit√£o Francisco X. Ribeiro Sampaio, do forte S√£o Jos√© do Rio Negro, atual Manaus, para que aniquilasse todas as aldeias ao redor dos rios. A a√ß√£o foi dif√≠cil para os invasores, por serem n√īmades os Muras logo usaram o conhecimento que tinham da regi√£o como t√°tica para derrot√°-los, passaram a ocupar diversos pontos de todo o extenso territ√≥rio, surpreendendo as embarca√ß√Ķes portuguesas. Em resposta os portugueses requisitaram mais soldados para a luta. Quando se enfrentaram novamente muitos foram mortos embora a perda ind√≠gena tenha sido maior. Apesar dos Muras serem donos de muitas t√©cnicas de emboscadas, os portugueses por sua vez possu√≠am um poder de fogo ainda n√£o conhecido pelos ind√≠genas.

O confronto durou décadas, após mais de cem anos os colonizadores conseguiram exterminar quase a totalidade da aldeia Mura, vários índios incluindo mulheres e crianças foram lançadas às águas do rio vindo todos a morrerem afogados. Contudo a tribo lutou até o fim e hoje são conhecidos como um povo audacioso que combateu até a morte a invasão portuguesa.

Somente em fins do s√©culo XVIII que as miss√Ķes jesu√≠ticas conseguiram ‚Äúdomesticar‚ÄĚ a aldeia Mura deixando a passagem dos rios acess√≠vel para os mercadores portugueses.

Os remanescentes da tribo Muras ainda habitam as margens do rio Madeira foram aculturados e convivem pacificamente em comunidade sobrevivendo da pesca e da agricultura de subsistência.

 

√ćndio mura (√† esquerda) e √≠ndios aspirando paric√° (√† direita) fonte : Qu√≠mica Nova Interativa (QNINT)
√ćndio mura (√† esquerda) e √≠ndios aspirando paric√° (√† direita) fonte : Qu√≠mica Nova Interativa (QNINT)

 

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