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UBS´s fluviais melhoram a qualidade de vida de comunidades ribeirinhas. Entenda sobre!

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A enfermeira Maria Adriana Moreira, á época Secretária de Saúde de Tefé, é uma entusiasta do uso da Unidade Básica de Saúde Fluvial, não somente por ser uma das responsáveis pelo projeto que culminou na implementação da estratégia no município onde é gestora, mas por acreditar que a estratégia representa um investimento na qualidade de atendimento à saúde e na melhoria das condições de trabalho das equipes que atendem comunidades ribeirinhas. Especialista em Gestão e Auditoria em Sistemas e Serviços de Saúde e conhecedora da realidade do Amazonas, onde atuou na atenção básica e acompanhou obras por todo o estado, ela apostou no modelo que leva às comunidades que ficam às margens dos rios, em regiões distantes da zona urbana de Tefé, vacinas, atendimento médico, odontológico e exames, com a certeza de que o município economizaria ao assistir à diminuição do fluxo de pessoas às unidades urbanas. Na entrevista que concedeu à Radis, ela fala das origens do projeto, avalia suas limitações e os resultados de quase dois anos de trabalho: melhoria nos indicadores e a certeza de que o atendimento promove respeito ao usuário. “Nosso objetivo em dar qualidade de atendimento para a população e para os profissionais foi atendido”, assegura.

Como surgiu a ideia de implementar uma UBS fluvial?

Em 2009, quando era gestora de Borba (Amazonas), aproveitei uma ida a Brasília com o prefeito para questionar o Ministério da Saúde por que não financiavam uma embarcação, já que tínhamos uma grande área do território na Amazônia Legal que necessitava de lancha e barco. No ministério, me responderam que nunca tinham recebido um projeto para esse tipo de ação. Quando retornei ao Amazonas, pesquisei o que era necessário no manual de Unidades Básicas de Saúde e montamos um projeto, que foi financiado pelo Ministério da Saúde. A UBSF de Borba foi inaugurada em 2013, mas eu saí de lá em dezembro de 2012. Nós deixamos a embarcação pronta, equipada, com os insumos, para a gestão do próximo prefeito eleito. Hoje, são mais de 100 embarcações financiadas pelo Ministério da Saúde na Amazônia Legal.

E a unidade de Tefé?

Foi meu primeiro pedido ao prefeito, quando eu vim para cá. No primeiro ano ele conseguiu a aprovação de uma emenda parlamentar e, exatamente um ano e meio depois, estávamos inaugurando a unidade básica Vila de Ega. Em 18 de junho ela começou a fazer viagens.

O que mudou na atenção à saúde das pessoas que hoje são atendidas pela UBSF?

Antes o município fretava barcos de madeira, sem condições de abrigar consultórios, os profissionais dormiam em redes. Os insumos eram levados daqui, e os atendimentos eram feitos no posto, no centro social, na escola ou na casa de algum morador. Desde o início, tentamos imprimir um ritmo de ter profissionais nas comunidades pelo menos a cada 60 dias. Antes, a gente não tinha a Estratégia Saúde da Família Fluvial cadastrada e habilitada pelo ministério, já que não tínhamos embarcação adequada. O município deslocava profissionais de outros setores para irem nessas viagens, para conseguir atingir meta de vacinação e de outros indicadores. Só a partir de junho de 2018 que começamos a ter o atendimento no formato que imaginávamos ser adequado. Hoje, as viagens variam de região para região, porque depende da vazante dos rios. Em Tefé, não navegamos mais na UBS fluvial depois de outubro, só depois da primeira semana de dezembro, quando o rio volta a encher e a UBSF navega somente na área do Caiambé. No rio Tefé, só se consegue ir a partir de janeiro.

Hoje a UBS fluvial atende quais áreas?

Ela atende três áreas, a área do Rio Tefé e duas áreas que estão vinculadas a Unidade Básica do distrito de Caiambé, que fica na área do rio Solimões. Caiambé tem mais de dois mil habitantes e temos unidade básica tradicional lá. As equipes de lá são vinculadas a essa unidade básica tradicional, enquanto a equipe do rio Tefé é exclusiva da unidade fluvial. Quando a UBSF está parada, os profissionais estão de folga, na educação permanente ou atendendo em uma unidade chamada Irmã Adonai, aqui do município. Estamos tentando diminuir o intervalo entre as viagens para que eles possam fazer no mínimo seis viagens na embarcação e atingir os indicadores — temos que captar gestantes precocemente, acompanhar pacientes crônicos diabéticos e hipertensos e fazer imunização, por exemplo.

As metas de produtividade de uma UBS Fluvial são as mesmas de uma UBS na cidade?

Esse é um ponto crítico. Vou usar como exemplo o programa Previne Brasil. Colocaram Tefé como município urbano, usando a referência do IBGE. Como Tefé pode ser comparado a um município lá do Sudeste, se temos comunidades que levam até 36 horas para chegar lá? O Ministério deveria tratar com equidade não só a Amazônia Legal, mas as especificidades de estados e municípios. A nossa área rural não pode ser tratada como área urbana. Eles determinam que cada equipe deve atender quatro mil pessoas, mas na área do rio Tefé estão menos de duas mil. Mesmo assim, nossas metas são iguais as da área urbana. A questão da gestante precoce, por exemplo. Nós fazemos um esforço para identificar as que engravidaram nos últimos três meses. Em outubro, novembro e dezembro vai haver mulheres engravidando, que só vou conseguir encontrar no mês de janeiro. Estou preocupada com o prejuízo disso, porque o financiamento vai ser baseado nesses indicadores.

Como é feito o financiamento da UBS Fluvial?

Por enquanto usamos recurso federal, mas também utilizamos alguns saldos. Existe a Estratégia Saúde da Família Fluvial e existe a Estratégia Saúde da Família Ribeirinha. A diferença é que a primeira é feita na UBS fluvial e a segunda cadastrada em uma unidade básica física, de alvenaria. Aqui em Tefé temos quatro ESF ribeirinhas e uma ESF fluvial. Na fluvial, estávamos recebendo 156 mil reais, mas diminuiu 10 mil com a contratação do médico pelo Programa Mais Médicos, então são 146 mil reais.

Que retorno o município tem tido com a UBSF?

Aumento na cobertura vacinal, no número de consultas de gestantes no pré-natal, de exames ginecológicos preventivos, maior acompanhamento dos pacientes crônicos e da cobertura em saúde bucal. Também observamos a diminuição da gravidez na adolescência, mas não sei se necessariamente se foi por conta da atuação da UBSF, já que orientação também é feita pelas equipes de saúde ribeirinhas. Tem mais um, a questão da cobertura da saúde bucal. Só tínhamos sete equipes de saúde bucal em Tefé e só havia um consultório no Caiambé, e mesmo assim estava quebrado. Hoje temos dois dentistas, a equipe da área fluvial, consultórios da estrada e um consultório móvel na Ilha do Tarará.

Um dos limites identificados no modelo de UBS Fluvial é a falta de continuidade do atendimento dos usuários ribeirinhos em unidades da área urbana. Como enfrentar essa limitação?

Nós pensamos em adotar a caderneta do ribeirinho, no mesmo modelo da caderneta da gestante ou do adolescente, para quando ele chegar a uma unidade hospitalar estar com todas as informações atualizadas. Quando a mulher vier à policlínica para ginecologista, neurologista ou pediatra, na recepção ela vai ser identificada como ribeirinha e ser tratada de forma diferente, porque não é moradora da área urbana. Também observamos aqui que a equipe já está criando vínculo com a comunidade e vejo o médico acompanhar o paciente que está internado na cidade. Queremos diminuir o intervalo entre as viagens para que o paciente procure menos a área urbana, para que só venha quando for necessário se consultar com um especialista.

Qual a avaliação sobre o trabalho da UBSF?

Eu sempre me emociono ao dizer que o maior retorno é o que a população me dá. Eu fui em uma comunidade e o comunitário disse que estava sendo tratado como gente. Eu já ouvi outros gestores dizerem que a UBSF custa muito caro para atender poucas pessoas, mas para mim, se fosse para atender uma família já valeria à pena. Construir uma embarcação desta custa menos de R$ 2 milhões, 400 mil de equipamentos e 150 mil para custear as viagens; não é um valor alto em relação ao que podemos economizar evitando a vinda de mais pacientes à cidade. Ainda não temos dados concretos, mas se as equipes trabalharem nessa organização, vamos ter menos pacientes internados e teremos uma população não adoecida e sem trazer gastos para a média complexidade. Nosso objetivo em dar qualidade de atendimento para a população e para os profissionais foi atendido. Além disso, a UBSF traduz o princípio da equidade, porque permite tratar diferente quem é diferente. Antes a comunidade era obrigada a procurar atendimento na área urbana, e a embarcação que chegava lá não era adequada. Hoje, oferecemos o tratamento que os comunitários merecem.

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